quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Mais ainda sobre autismo

Temos observado um crescimento de casos de autismo na escola onde trabalho nos últimos cinco anos. Há muitas famílias que migram para Brasília, principalmente se um dos pais é militar, buscando atendimento diferenciado que oferecemos em nossas escolas públicas. Esta é uma das razões para o crescimento de casos em nossas escolas.

Outro fator que se pode indicar como causa para tal aumento é a visão sensível de profissionais para diagnosticar o quadro clínico típico do autismo. Profissionais da saúde e da educação têm realizado cursos e convivido com mais crianças autistas. A experiência e a curiosidade de profissionais podem funcionar como o facho de luz de uma lanterna facilitando a identificação de crianças com este quadro.

Talvez o uso de medicação como coadjuvante para o controle emocional de pessoas no espectro do autismo também tenha provocado maior atenção de especialistas médico/as ao diagnóstico. Sabemos que há um incentivo de grandes laboratórios para médicos que prescrevem seus produtos. Para realizar a prescrição medicamentosa, é necessário sinalizar algum diagnóstico compatível.

O Movimento do Orgulho Autista foi muito bem sucedido em diminuir a resistência de familiares de crianças no espectro autista frente ao diagnóstico. Ultimamente, familiares sugerem tal diagnóstico em reuniões comigo. Além do movimento, terapias aplicadas com sucesso têm oferecido mais esperança de adaptação social às pessoas que convivem com autistas. Também há mais informações da população em geral e marcadores visuais para sinalizar as deficiências ocultas como as típicas de autistas[1]. Para se adaptar ao atendimento de pessoas com autismo, setores do comércio e serviço buscaram treinamento de pessoal. Durante estes treinamentos, houve auto-identificação, redução de preconceitos, busca de informações aprofundadas, promoção de compaixão e consequente acolhimento por parte de pessoas que não convivem com autismo.

O crescimento de diagnósticos tardios também aumentou a divulgação das características do transtorno, além da conscientização de pessoas que não atuam diretamente nas áreas de saúde e educação. Ao relatarem seus sintomas e se revelarem autistas para amiga/os e colegas de trabalho e/ou cursos, estes adolescentes e adulto/as promovem a ampliação do alcance de informações acerca do transtorno do espectro autista. Assim, mais pessoas têm acesso a informação provocando o acréscimo no volume de identificações de pessoas com TEA. Perceber indivíduos adaptados à sociedade, muitos já engajados no mercado de trabalho, suavisa o impacto do diagnóstico nas famílias de crianças com suspeita de autismo. Refletir sobre os efeitos do diagnóstico nas relações sociais da família e suas expectativas para o futuro daquele ente se torna mais suave e menos angustiante.

Acrescenta-se a isto, todo o avanço legal conquistado pelo movimento do orgulho autista nos últimos dez anos:

Lei nº 12.764/2012 – institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Lei 14.626/2023 – estende o direito ao atendimento prioritário para pessoas com TEA. 

Lei 13.861/2019 – estabelece a inclusão de perguntas sobre o autismo no censo. 

Lei 7.611/2011 – dispõe sobre a educação especial e o atendimento educacional especializado. 

Lei 10.098/2000 – estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade. 

A instituição a qual pertenço oferece atendimento diferenciado a estudantes no espectro autista, com deficiências ou transtornos funcionais (TDAH, TPAc, dislexia entre outros). Um destes atendimentos é a redução de estudantes por turma conforme a quantidade de estudantes com necessidades educacionais especiais (ENEE). A quantidade de pessoas com autismo por turma tem crescido tanto que as delimitações normativas não têm sido respeitadas pela/os nossa/os planejadore/as.

O atendimento diferenciado para cada caso de transtorno funcional específico em sala de aula pela professora torna o planejamento de aula exigente. E a prática docente têm ficado mais desafiadora. Uma de minhas turmas tem duas crianças no espectro autista, uma com síndrome de Down e duas com transtornos funcionais diferentes. A turma tem dezoito estudantes e recebe apoio de outro profissional da escola, além de apoio voluntário de pessoas externas à instituição escolar. Este apoio busca suplantar as dificuldades enfrentadas por possíveis choques de reações entre as crianças.

Eu não imagino como seria administrar uma turma como esta em níveis educacionais mais avançado, com estudantes adolescentes, por exemplo. É preocupante também que as pessoas com TEA progredirão para o ensino fundamental e médio com diversos professores por turma. O ensino fundamental séries finais (do 6º ao 9º ano) funciona com nove matérias diferentes. O ensino médio (do 1º ao 3º ano) conta com onze professore/as. Se o curso for técnico, a quantidade de matérias aumenta ainda mais (dezenove em turno integral).

As professoras com as quais trabalho fazem um perfil comportamental de cada criança no prazo de duas semanas aproximadamente. Elas permanecem 25 horas semanais com a mesma turma de quinze a trinta estudantes. As turmas com autistas tem redução de estudantes para que a professora disponibilize seu tempo de atendimento individualizado com as crianças que demandam mais ações em prol de sua aprendizagem e segurança em sala de aula. Quanto tempo um/a professor/a que leciona para trezentos estudantes precisará para estudar, mapear, planejar-se considerando a/os estudantes com TEA que estão em suas turmas?

Se as pessoas com autismo estão sendo diagnosticadas com maior facilidade, elas conviverão entre si também em quantidade crescente. Pessoas com TEA se desorganizam emocionalmente por motivos nem sempre identificáveis e muitas vezes demoram para se reorganizarem de modo a prosseguir com suas atividades cotidianas. Este é um dos sintomas comuns do quadro característico de TEA. Estas pessoas conviverão entre si além de compartilharem espaços com outros indivíduos provocativos ou desrespeitosos. Uma pessoa autista nem sempre consegue controlar o próprio comportamento de modo a não disparar crises em outras com TEA. E estudantes neurotípico/as podem atingir emocionalmente autistas com palavras, gestos ou atos por vários motivos, inclusive pura e simplesmente atrapalhar a aula.

Penso que há dois problemas que precisam ser analisados a partir da situação que descrevo neste texto. O primeiro é indicado pelo assombro que se tem com o quantitativo tão aumentado de autistas ao nosso redor. Eles estavam o tempo todo convivendo sem que especialistas se dessem conta? Ou alguma coisa em nossa cultura foi modificada a ponto de provocar o autismo? Eu acredito que os indivíduos com TEA do nível de suporte 1 conviviam passivamente apesar de seu sofrimento e engajamento para se adaptar à/os demais. Pessoas com TEA em nível de suporte 2 e 3 eram diagnosticadas porque seu comportamento é muito destacado. Assim, a resposta para estas duas perguntas propostas é sim.

O segundo problema refere-se à fidedignidade do diagnóstico oferecido pelas classes médica e psicológica. Será que todos estes diagnósticos estão corretos? Todas as pessoas indicadas com TEA têm, realmente, características que satisfazem este diagnóstico conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS) ou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria? Ouso responder negativamente a esta questão.

Para se considerar uma pessoa com TEA é necessário que seu comportamento típico se enquadre em três campos: linguagem, relacionamento social, estereotipias. Mesmo contemplando a ampliação do arcabouço do autismo através do conceito espectro que o DSM- V trouxe, desvios ou distúrbios nestas três áreas devem estar presentes no comportamento de quem recebe o diagnóstico.

Eu tenho encontrado crianças e adultos que não apresentam comportamentos condizentes com o quadro e estão diagnosticada/os como TEA. Esta situação me parece bastante preocupante. Isto porque indivíduos com autismo precisam de apoio para alcançar uma vida plena, necessitam cuidados especiais em sua educação e por parte de quem com ele/as convivem ao longo de sua vida. Por ser assim, estas pessoas têm mais direitos do que as demais que não enfrentam suas dificuldades. Estes direitos envolvem os atendimentos prioritários e diferenciados mencionados no início deste texto, por exemplo. E incluem também acesso facilitado a empregos.

Sabemos que grandes populações e vantagens provocam intenções de fraudes. O acesso a melhores serviços, supressão de filas, atendimentos prioritários em diversos âmbitos, mais atenção, delicadeza e cuidado, melhores escolas, empregos mais rentáveis são elementos altamente desejáveis. Todos estes direitos de pessoas autistas têm provocado indivíduos neurotípicos em direção a fraudar serviços e concursos públicos. Atento ao volume de ocorrências neste sentido, o Conselho Federal de Psicologia acionou nossa classe profissional a tomar algumas precauções adicionais na entrega de relatórios de avaliação e decisão de diagnósticos.

Além disso, há que se considerar os riscos de um diagnóstico preferencial. É possível percebermos uma tendência em direção a um diagnóstico na classe médica. Nós, leigos em medicina, não comentamos mais quando voltamos de um atendimento em pronto-socorro com diagnóstico de virose. A variedade de sintomas que corresponde a virose é tão grande que a possibilidade de erro é pequeno. Entretanto, o erro de diagnóstico por um/a médico/a pode ter efeitos devastadores. E, no caso em discussão, gera consequências sociais que não me parecem estar sendo consideradas.

O diagnóstico de TEA é realizado através de relato de pessoas que convivem com uma criança ou pelo autorelato, se o/a “paciente” é adolescente ou adulto/a. Considerando as informações amplamente difundidas acerca das características de autismo, uma pessoa inteligente pode facilmente induzir um/a médico/a a indicar este diagnóstico. Para evitar que esta falha ocorra, a classe médica tem recorrido a profissionais em avaliação neuropsicológica. Através de testes psicométricos, entrevistas, observações em consultórios, psicóloga/os têm oferecido suas análises que, por sua vez, embasam o direcionamento e definição diagnóstica. Se visualizarmos rapidamente que o “sintoma” isolamento social pode ser classificado como personalidade esquizóide, esquizotípica, casos de esquizofrenia, fobia social, hikikomori por exemplo; podemos pensar em quantos erros temos produzido por meras tendências.

Outro problema, bastante grave em meu entendimento, relaciona-se ao financiamento oferecido pela indústria farmacêutica para a elaboração do DSM-V. Este financiamento foi denunciado internacionalmente e duramente criticado durante os trabalhos da quinta edição do manual a ponto de uma revisão já ter sido publicada em 2023 (o DSM-V é de 2013). O crescimento de casos com o diagnóstico em estudo cresceu sensivelmente após a publicação do DSM-V. E estes casos tem sido medicados com drogas que podem gerar dependência e efeitos colaterais preocupantes. A medicalização de nossas crianças é algo bastante sério, terá efeitos em seu desenvolvimento, em sua aprendizagem, em seu modo de se relacionar com pares. Tenho acompanhado perturbações comportamentais a partir de interações medicamentosas e/ou de efeitos colaterais de medicamentos administrados em estudante autista de sete anos. Esta criança ainda não apresenta linguagem comunicativa e demonstra um nível de sofrimento que angustia a todos que estão ao seu redor. A experimentação medicamentosa pode gerar grande sofrimento ao invés de sanar problemas. Retornar ao estado anterior à medicação deletéria tem demorado mais do que o desejável. Esta experimentação é delicadíssima se considerarmos que o funcionamento cerebral de uma criança autista é diferente do funcionamento de uma criança neurotípica.

Concluindo esta análise, é importante indicar o aumento do volume de procura por consultas neurológicas e neuropsicológicas nos últimos cinco anos. Eu não tenho este levantamento de dados, mas acompanho o crescimento nos valores das consultas e na frequência com que ouço as famílias buscando por tais serviços. Vejo com bastante crítica as pessoas serem encaminhadas para neurologista ao invés de psiquiatras, como deveria ser o caso já que não há exames que detectem os marcadores físicos de autismo.

Saímos há três anos de uma pandemia devastadora. Os efeitos da covid-19 ainda estão sendo sentidas nas vidas de todos nós. As ausências sentidas, as sequelas físicas que a doenças nos deixou, o receio de reincidivas somam-se à nossa defasagem social. Ainda não nos recuperamos do efeito da quebra de convívio físico entre cidadã/os, as suscetibilidades geradas pelo isolamento, as dificuldades de compaixão. Estar consigo mesmo durante a última pandemia teve efeito deletério em algumas pessoas mais do que em outras? Este fator está sendo analisado pela classe médica? Todas as pessoas tiveram dificuldades para retornar aos desafios diários que nos impõe o convívio social. Será que todos nós já superamos estes óbices? Será que pessoas menos sociáveis estão sendo diagnosticadas adequadamente? Ou terá surgido um novo quadro nosológico?

[1] cordão de girassol é um acessório utilizado como símbolo de conscientização e apoio a pessoas autistas e com deficiências ocultas. Inspirado na beleza e resiliência dos girassóis, esse cordão representa solidariedade e compreensão. Foi instituído pela lei nº 14.624 de 17 de julho de 2023. Fonte:https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2023/07/19/cordao-com-desenhos-de-girassol-para-deficiencias-vira-simbolo-nacional, acessado em 28/11/2024.


domingo, 24 de novembro de 2024

Sobre ansiedade

 Eu sou correntista do Banco do Brasil. Nos primeiros meses deste ano, me deparei com uma fotografia de Gilberto Gil na imagem de abertura do aplicativo para celulares deste banco. A imagem era divinal: Gil muito elegante com uma roupa clara segurando um lírio de caule longo como uma lança. Aquela imagem foi muito estudada e a fotografia, esmerada. Era a propaganda de uma apresentação do grande artista da música nacional patrocinada por um dos produtos do banco. Trata-se da última série de espetáculos que Gilberto Gil fará.

Por ser quem é, o artista já atrairia milhares de espectadores. Com a informação de que será a última apresentação, certamente a busca de ingressos seria grande. As datas programadas para os espetáculos por todo país foram divulgadas nas semanas subsequentes: seriam no ano seguinte, em 2025.

Então teremos que planejar um evento[1] com mais de um ano de antecedência?

As propagandas no aplicativo do próprio banco tiveram grande alcance, já que este banco é o maior do nosso imenso país. Como o Tesouro Nacional é movimentado através dele, seu tamanho é bastante vultoso. A importância desta empresa nacional é significativa e conhecida. Com uma foto tão artística e bem produzida, mesmo quem não é fã de Gil ficaria com vontade de assistir ao espetáculo.

E por que esta divulgação acontece tão precocemente?

Em minha cidade, a apresentação acontecerá em uma imensa arena: nosso estádio de futebol reformado e ampliado para os jogos da Copa do Mundo de 2014. Como Brasília não conta com times de futebol importantes para o cenário nacional, nosso estádio passou a demandar custos de manutenção ao governo do Distrito Federal ao invés de gerar recursos aos cofres públicos. Ele foi arrendado e passou a ser usado para eventos culturais tanto em sua área interna quando perimetral.

Devido ao tamanho da arena, os lugares para apresentação de Gil foram mapeados e distribuídos com diferentes preços. Os lugares mais distantes são as arquibancadas superiores. De lá, mal se vê o artista. É necessária a instalação de telões que possibilitem a visualização do que acontece no palco. Assim, a pessoa vai ao espetáculo e assiste à transmissão ao vivo por vídeo com segundos de atraso. Esta localização tem o nome de Andar com Fé. Mais próxima do que a arquibancada, estão as cadeiras inferiores denominadas A Paz. A pista na frente do palco tem o nome de Aquele Abraço. Quanto mais perto do palco, mais caro o ingresso. Quem conhece minimamente o artista, sabe como estes nomes são significativos em sua carreira. São nomes de músicas que fizeram grande sucesso. Deve ter sido difícil escolher somente três músicas. Mas há, ainda, uma área mais próxima ao palco. Trata-se da parte frontal da pista na frente do palco. Seria interessante se esta área, quase no gargarejo, recebesse o nome de Palco, outro grande sucesso de Gil. Mas esta área foi nominada Pista Premium Banco do Brasil.

Que choque!

Esta última área teve suas vendas abertas em agosto de 2024 exclusivamente para clientes do Ourocard. Os ingressos tinham, inicialmente, os valores correspondentes às cadeiras inferiores. Quantos clientes novos a empresa Ourocard conseguiu com esta programação? Com a venda antecipad(íssim)a, creio que a empresa não precisou desembolsar nada. Os ingressos da Pista Premium se esgotaram rapidamente. A propaganda linda, divulgada na própria mão de possíveis interessado/as, preços reduzidos para compra antecipada e mais ainda para clientes do banco geraram expectativa de uma chance imperdível. Eu não tenho informações de quando as entradas para a Pista Premium foram esgotadas.

O patrocínio que assegurará a turnê em questão é do Ourocard, o cartão do Banco do Brasil. É provável que a venda destes ingressos de forma tão precoce tenha garantido o valor necessário para a produção do evento sem necessidade de movimentar valores patrimoniais da empresa.

Temos uma engenhosidade sagaz aqui, não é mesmo?

E este planejamento que gera expectativa, que faz os fãs de Gil quererem aproveitar uma grande oportunidade gera ansiedade.

Este formato de grande negócio para vendedores não foi criado para a arte. Vimos este mesmo estilo de vendas criar comoção, euforia e compras compulsivas pela empresa estadunidense Apple. Seus produtos são incrivelmente caros. Sua qualidade, entretanto, supera os produtos similares, garantem o/as consumidore/as. Seus programas e aplicativos são protegidos de invasões de piratas de internet, mas alguns precisam ainda ser pagos mensalmente, conforme me informou uma colega de trabalho que tem um computador portátil desta marca.

O que eu trouxe aqui para nossa análise conjunta não é meramente uma descrição comercial de um evento. O que eu trago é um modo de operação que gera doença psíquica para grandes contingentes populacionais. E adoecimento psíquico é um de nossos temas.

A partir da expectativa de realizar uma compra excepcional, gera-se ansiedade, competição, consumismo, compulsão, vigilância constante... Quais são os efeitos dessas emoções e comportamentos quando vivenciados permanentemente por uma população inteira? A tensão gerada por possibilidade de grandes oportunidades destrói o corpo de operadores de bolsa de valores. Este estudo é antigo e seus resultados já são de domínio público. Estes trabalhadores recebem comissões vultosas por seus ganhos na administração de compra e venda de ações empresariais, mas deverão administrar os impactos desta vida terrível poucos anos depois de ingressarem nesta área. Será que podemos comparar o mercado de ações com o novo sistema de propaganda de produtos comerciais?

Temos a ansiedade como uma emoção que vem aumentando seu contágio e atingindo pessoas cada vez mais jovens. Viver sem ansiedade me parece como estar um pouco fora do mundo. Quem tem mais de trinta anos pode verificar em sua própria existência o aumento de nosso ritmo de vida. Nosso tempo foi reduzido, nossas obrigações aumentaram, há muitas oportunidades que não podem ser perdidas, temos muitos eventos para frequentar, cursos imprescindíveis, necessidades urgentes para satisfazer.

De onde tudo isto veio?

Suponho que este estado de coisas foi gerado por quem ganha financeiramente com ele. Nenhuma indústria lucrou mais com a pandemia de covid-19 e a estratégia de isolamento físico gerada por ela que a farmacêutica. Eu não vou citar dados estatísticos para argumentar sobre isto, mas indicarei o crescimento de casas comerciais farmacêuticas em nossas ruas. Em minha cidade, o comércio se estende por ruas com 200 metros de extensão. Há ruas com três ou quatro drogarias. Notem que este comércio foi o único que visualmente cresceu durante a pandemia.

Para além de emoções nocivas controladas por psicotrópicos, a sensação de insegurança que a ansiedade traz, também pode vender outros produtos. Seguros de diversos tipos, previdência privada, sistemas de câmeras, automóveis individuais, condomínios verticais e horizontais com mais empregados, armas, plano de saúde, academias de ginástica, personal trainners, terapias convencionais e alternativas, médicos especialistas em transtornos mentais, profissionais treinados para recuperar traumas, psicóloga/os.

Precisamos estar atenta/os para manipulações de grandes contingentes populacionais e a geração de adoecimento. A quem estamos servindo ao recuperar pessoas para se manterem neste sistema de vida?

Entre 2018 e 19, um amigo querido começou a dizer ao nosso grupo de amigas psicólogas que a profissão do futuro era a nossa. Ele não pensou isto sozinho nem imaginou isto sem fundamento. E ser psicóloga neste panorama não parece algo proveitoso. Assim como se gera ansiedade através de bens culturais de massa e se vende ansiolíticos, há chance da responsabilidade pela ansiedade incontinente e crescente da população ser direcionada para nossa categoria profissional.

Os consultórios psiquiátricos estão lotados. As receitas de ansiolíticos e moderadores de humor são associadas a psicoterapia. Entretanto, minhas/meus colegas de faculdade não estão com seus consultórios cheios, muito pelo contrário. Os valores pagos aos profissionais de saúde pelos planos de saúde são baixíssimos. Conversei com uma colega e amiga esta semana e ela me falou das atuais dificuldades do consultório clínico psicoterápico. Em nossa conversa, ela concluiu que os problemas da/os clientes estão crônicos, intensos, desafiadores e de difícil superação. As demandas aumentaram, mas mudaram.

Quais são as nossas técnicas científicas para apoiar nossa/os clientes individualmente ou em pequenos grupos de modo a enfrentarem as doenças psíquicas e seus sofrimentos gerados pela cultura perniciosa a qual pertencemos?

Será que técnicas desenvolvidas há setenta anos promoverão recuperação ou manutenção de saúde psíquica neste panorama tão adoecedor?

É possível reduzir o impacto do adoecimento que percebemos em nossa/os clientes através da contextualização histórico-cultural atualizada?

Quais são os instrumentos da nossa ciência para enfrentarmos os desafios que nos são impostos?



[1] E não podemos dizer que seja um evento pessoal como um casamento, formatura ou aniversário de cinquenta anos.

sábado, 16 de novembro de 2024

Organização vital

 Muitas vezes reclamamos de elementos naturais sem nos darmos conta da grande importância que têm para a constituição humana, para nossa organização material ou psíquica. A nossa queda depois de adultos nos mostra o quanto o solo é duro. Cimento, asfalto, cerâmica, granito que revestem o chão onde pisamos nas ruas, em nossas casas e edifícios. O chão é tão duro que nos ofende. Tropeços, quedas, escoriações são riscos constantes quando estamos em movimento, mas aumentam quando há argila, buracos, poças d’água, obstáculos e, porque não dizer, bagunça. Embora não pensemos nele, a não ser que nos provoque algum risco, o solo nos dá suporte constante. E só há risco de queda porque há gravidade.

Esta força física estabelece organização em nossa vida. Sua importância é tão grande que sequer pensamos nela. Sem a gravidade, a vida como a conhecemos talvez não posse possível. A formação de rios, lagos, mares e chuva depende da força gravitacional. Uma experiência de física em estação espacial realizada por astronauta da agência espacial canadense (CSA/ASC) exemplifica isto surpreendentemente[1]. Sem gravidade, a água perde seu peso e se mantém flutuando ligada a si mesma ou a qualquer objeto com o qual entre em contato. Ela permanece. A água não cai, não corre. Assim, fenômenos comuns em nosso planeta não aconteceriam sem a força da gravidade. A vida aconteceria de forma bastante diferente da que presenciamos e conhecemos. É a gravidade que nos possibilita andar com segurança, manter os objetos onde estão, organizá-los, higienizarmo-nos e ao ambiente. Podemos reclamar de feridas ocasionadas por acidentes devidos à força da gravidade, mas como seria não termos esta força física nos organizando?

Reclamamos de muitas coisas constantes e, por vezes, fundamentais em nossas vidas sem nos atentarmos para o papel essencial que representam. Reclamamos de nossas mães, mas a maioria de nós mal pode pensar em como seria nossa vida sem suas presenças. Reclamamos de nossos síndicos e nem imaginamos quanto trabalho têm para administrar nosso bem imóvel ou nosso lar. Reclamamos de nossas professoras, porém o que dizemos da organização do conhecimento que elas planejam para nos apresentar, fazendo-o de forma que a complexidade chegue paulatinamente, facilitando nosso aprendizado?

Freud, em seu simples e fácil O Mal-Estar na Civilização[2], mostra-nos que há três grandes fontes de insatisfação humana. A primeira delas é a própria natureza com seus perigos de todas os reinos, seja animal, vegetal, mineral ou monera. Chuvas torrenciais, terremotos, descargas elétricas, alimentos venenosos, feras, aracnídeos peçonhentos ou insetos que podem nos trazer vírus, protozoários ou bactérias são alguns perigos que nos rondam permanentemente e dos quais necessitamos nos precaver constantemente. A segunda fonte de insatisfação humana é a fragilidade de nossa constituição física. Para enfrentar os perigos meramente exemplificativos listados acima, precisamos desenvolver artefatos artificiais. Nossas casas, tecnologias de extinção de animais sinantrópicos, vacinas são exemplos de aplicação de conhecimento em substituição da típica ausência de proteção física humana. E, para encerrar esta listinha de Freud, há a maior de todas as insatisfações: a advinda do contato com outro ser humano. As nossas relações sociais são fonte de grandes dissabores. E Freud ainda nos diz que esta dor nos parece maior porque deveríamos ter controle sobre ela. Enquanto humanos, podemos estabelecer regras que conduziriam nossas condutas de forma a evitar malefícios uns aos outros.[3]

Estudando direito há alguns anos atrás, percebi que estas normas de conduta existem e têm exatamente esta função, ou seja, regular nossas ações de modo a reduzirmos efeitos nocivos em nossos próximos e, por que não dizer, distantes[4]. Essas normas são as leis. Entretanto, há quem diga que as regras existem para serem quebradas. Além de não sabermos todas as leis existentes em nossa cidade (imagine em nosso país), as regras mais comuns e conhecidas – as de convivência entre vizinhos ou as de trânsito – são comumente rompidas.

E reclamamos de quem convive conosco. Quanto mais perto de nós, mais nos queixamos. As ações e omissões de quem amamos, queremos perto, nos preocupamos são as que mais nos ofendem. E, na maioria das vezes, não pensamos como seria estar no mundo sem esta(s) pessoa(s) em nossas vidas.

É justamente a convivência entre as pessoas que promove, com maior intensidade e efetividade, o nosso desenvolvimento. Nenhum ambiente, informação, animal, máquina ou programa dito inteligente se aproxima da experiência promovedora de crescimento que outro ser humano proporciona.

Discutindo com famílias na escola em vários momentos e oportunidades neste ano de 2024, concluímos que o melhor concorrente para um aparelho de celular seus jogos e vídeos automaticamente alternados é outro ser humano. As crianças se mantém unidas, tranquilas, se regulam mutuamente e por um período longo. Sim, elas brigam, mas, se as instruirmos adequadamente, conseguem se resolver com autonomia rapidamente.

Talvez devamos interferir menos na organização própria de crianças em uma escola. Oferecer temas, materiais e cuidar para não se machucarem pode ser mais produtivo que mantê-las em ordem, quietas, silenciosas, “atentas”, olhando para nós.

Além disso, todo ser humano é promotor de desenvolvimento para os que estão ao seu redor. Pensemos no que podemos aprender com aquele “ser humaninho”, parodiando Mustafary do talentoso Marco Luque, para evitarmos os sofrimentos que resistir e reclamar dele nos causa.



[1] Para ver a experiência com água na internet, busque por https://youtu.be/wmoVG7OZkGc, acessado em 16/11/2024.

[2] Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1930/1996.

[3] Capone, Vicenza C. Satisfação de idosos em ambientes de vizinhança de duas regiões do DF. Dissertação de Mestrado, Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, Brasília – DF, 2001.

[4] Muitas de nossas ações, formas de pensar e consumo atingem comunidades muito distantes de nós fisicamente. Os sons que promovemos com nossos deslocamentos pelo mundo afetam a vida marinha, por exemplo. Mesmo que não voemos constantemente ou viajemos de navio, nossas compras ou equipamentos que necessitamos para algumas de nossas atividades comuns chegam até nós por estas vias. Ouça o programa de áudio Ter que levantar a voz da Rádio Novelo Apresenta. Muitos de nossos artefatos metálicos advém de extrações em minas ou garimpos em terras indígenas. E a presença da atividade extrativista é muito impactante nestas comunidades e suas regiões.

https://open.spotify.com/episode/2Qv464pipvbRgJT8Wu30Sp?si=Oo4w61tKRUCX7kOKnP-84Q&t=902, acessado em 16/11/2024.

Sobre o impacto de nossas máquinas no interior dos continentes, acesse também o belíssimo e emocionante programa de áudio A Casa dos Espíritos no episódio Caixas pretas também da Rádio Novelo Apresenta.

https://open.spotify.com/episode/0rPDzb3ZMDAlVoX7qbQqHO?si=sYKnopOtRESfPvuqKNTjvQ, acessado em 19/11/2024.