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quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Mais ainda sobre autismo

Temos observado um crescimento de casos de autismo na escola onde trabalho nos últimos cinco anos. Há muitas famílias que migram para Brasília, principalmente se um dos pais é militar, buscando atendimento diferenciado que oferecemos em nossas escolas públicas. Esta é uma das razões para o crescimento de casos em nossas escolas.

Outro fator que se pode indicar como causa para tal aumento é a visão sensível de profissionais para diagnosticar o quadro clínico típico do autismo. Profissionais da saúde e da educação têm realizado cursos e convivido com mais crianças autistas. A experiência e a curiosidade de profissionais podem funcionar como o facho de luz de uma lanterna facilitando a identificação de crianças com este quadro.

Talvez o uso de medicação como coadjuvante para o controle emocional de pessoas no espectro do autismo também tenha provocado maior atenção de especialistas médico/as ao diagnóstico. Sabemos que há um incentivo de grandes laboratórios para médicos que prescrevem seus produtos. Para realizar a prescrição medicamentosa, é necessário sinalizar algum diagnóstico compatível.

O Movimento do Orgulho Autista foi muito bem sucedido em diminuir a resistência de familiares de crianças no espectro autista frente ao diagnóstico. Ultimamente, familiares sugerem tal diagnóstico em reuniões comigo. Além do movimento, terapias aplicadas com sucesso têm oferecido mais esperança de adaptação social às pessoas que convivem com autistas. Também há mais informações da população em geral e marcadores visuais para sinalizar as deficiências ocultas como as típicas de autistas[1]. Para se adaptar ao atendimento de pessoas com autismo, setores do comércio e serviço buscaram treinamento de pessoal. Durante estes treinamentos, houve auto-identificação, redução de preconceitos, busca de informações aprofundadas, promoção de compaixão e consequente acolhimento por parte de pessoas que não convivem com autismo.

O crescimento de diagnósticos tardios também aumentou a divulgação das características do transtorno, além da conscientização de pessoas que não atuam diretamente nas áreas de saúde e educação. Ao relatarem seus sintomas e se revelarem autistas para amiga/os e colegas de trabalho e/ou cursos, estes adolescentes e adulto/as promovem a ampliação do alcance de informações acerca do transtorno do espectro autista. Assim, mais pessoas têm acesso a informação provocando o acréscimo no volume de identificações de pessoas com TEA. Perceber indivíduos adaptados à sociedade, muitos já engajados no mercado de trabalho, suavisa o impacto do diagnóstico nas famílias de crianças com suspeita de autismo. Refletir sobre os efeitos do diagnóstico nas relações sociais da família e suas expectativas para o futuro daquele ente se torna mais suave e menos angustiante.

Acrescenta-se a isto, todo o avanço legal conquistado pelo movimento do orgulho autista nos últimos dez anos:

Lei nº 12.764/2012 – institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Lei 14.626/2023 – estende o direito ao atendimento prioritário para pessoas com TEA. 

Lei 13.861/2019 – estabelece a inclusão de perguntas sobre o autismo no censo. 

Lei 7.611/2011 – dispõe sobre a educação especial e o atendimento educacional especializado. 

Lei 10.098/2000 – estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade. 

A instituição a qual pertenço oferece atendimento diferenciado a estudantes no espectro autista, com deficiências ou transtornos funcionais (TDAH, TPAc, dislexia entre outros). Um destes atendimentos é a redução de estudantes por turma conforme a quantidade de estudantes com necessidades educacionais especiais (ENEE). A quantidade de pessoas com autismo por turma tem crescido tanto que as delimitações normativas não têm sido respeitadas pela/os nossa/os planejadore/as.

O atendimento diferenciado para cada caso de transtorno funcional específico em sala de aula pela professora torna o planejamento de aula exigente. E a prática docente têm ficado mais desafiadora. Uma de minhas turmas tem duas crianças no espectro autista, uma com síndrome de Down e duas com transtornos funcionais diferentes. A turma tem dezoito estudantes e recebe apoio de outro profissional da escola, além de apoio voluntário de pessoas externas à instituição escolar. Este apoio busca suplantar as dificuldades enfrentadas por possíveis choques de reações entre as crianças.

Eu não imagino como seria administrar uma turma como esta em níveis educacionais mais avançado, com estudantes adolescentes, por exemplo. É preocupante também que as pessoas com TEA progredirão para o ensino fundamental e médio com diversos professores por turma. O ensino fundamental séries finais (do 6º ao 9º ano) funciona com nove matérias diferentes. O ensino médio (do 1º ao 3º ano) conta com onze professore/as. Se o curso for técnico, a quantidade de matérias aumenta ainda mais (dezenove em turno integral).

As professoras com as quais trabalho fazem um perfil comportamental de cada criança no prazo de duas semanas aproximadamente. Elas permanecem 25 horas semanais com a mesma turma de quinze a trinta estudantes. As turmas com autistas tem redução de estudantes para que a professora disponibilize seu tempo de atendimento individualizado com as crianças que demandam mais ações em prol de sua aprendizagem e segurança em sala de aula. Quanto tempo um/a professor/a que leciona para trezentos estudantes precisará para estudar, mapear, planejar-se considerando a/os estudantes com TEA que estão em suas turmas?

Se as pessoas com autismo estão sendo diagnosticadas com maior facilidade, elas conviverão entre si também em quantidade crescente. Pessoas com TEA se desorganizam emocionalmente por motivos nem sempre identificáveis e muitas vezes demoram para se reorganizarem de modo a prosseguir com suas atividades cotidianas. Este é um dos sintomas comuns do quadro característico de TEA. Estas pessoas conviverão entre si além de compartilharem espaços com outros indivíduos provocativos ou desrespeitosos. Uma pessoa autista nem sempre consegue controlar o próprio comportamento de modo a não disparar crises em outras com TEA. E estudantes neurotípico/as podem atingir emocionalmente autistas com palavras, gestos ou atos por vários motivos, inclusive pura e simplesmente atrapalhar a aula.

Penso que há dois problemas que precisam ser analisados a partir da situação que descrevo neste texto. O primeiro é indicado pelo assombro que se tem com o quantitativo tão aumentado de autistas ao nosso redor. Eles estavam o tempo todo convivendo sem que especialistas se dessem conta? Ou alguma coisa em nossa cultura foi modificada a ponto de provocar o autismo? Eu acredito que os indivíduos com TEA do nível de suporte 1 conviviam passivamente apesar de seu sofrimento e engajamento para se adaptar à/os demais. Pessoas com TEA em nível de suporte 2 e 3 eram diagnosticadas porque seu comportamento é muito destacado. Assim, a resposta para estas duas perguntas propostas é sim.

O segundo problema refere-se à fidedignidade do diagnóstico oferecido pelas classes médica e psicológica. Será que todos estes diagnósticos estão corretos? Todas as pessoas indicadas com TEA têm, realmente, características que satisfazem este diagnóstico conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS) ou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria? Ouso responder negativamente a esta questão.

Para se considerar uma pessoa com TEA é necessário que seu comportamento típico se enquadre em três campos: linguagem, relacionamento social, estereotipias. Mesmo contemplando a ampliação do arcabouço do autismo através do conceito espectro que o DSM- V trouxe, desvios ou distúrbios nestas três áreas devem estar presentes no comportamento de quem recebe o diagnóstico.

Eu tenho encontrado crianças e adultos que não apresentam comportamentos condizentes com o quadro e estão diagnosticada/os como TEA. Esta situação me parece bastante preocupante. Isto porque indivíduos com autismo precisam de apoio para alcançar uma vida plena, necessitam cuidados especiais em sua educação e por parte de quem com ele/as convivem ao longo de sua vida. Por ser assim, estas pessoas têm mais direitos do que as demais que não enfrentam suas dificuldades. Estes direitos envolvem os atendimentos prioritários e diferenciados mencionados no início deste texto, por exemplo. E incluem também acesso facilitado a empregos.

Sabemos que grandes populações e vantagens provocam intenções de fraudes. O acesso a melhores serviços, supressão de filas, atendimentos prioritários em diversos âmbitos, mais atenção, delicadeza e cuidado, melhores escolas, empregos mais rentáveis são elementos altamente desejáveis. Todos estes direitos de pessoas autistas têm provocado indivíduos neurotípicos em direção a fraudar serviços e concursos públicos. Atento ao volume de ocorrências neste sentido, o Conselho Federal de Psicologia acionou nossa classe profissional a tomar algumas precauções adicionais na entrega de relatórios de avaliação e decisão de diagnósticos.

Além disso, há que se considerar os riscos de um diagnóstico preferencial. É possível percebermos uma tendência em direção a um diagnóstico na classe médica. Nós, leigos em medicina, não comentamos mais quando voltamos de um atendimento em pronto-socorro com diagnóstico de virose. A variedade de sintomas que corresponde a virose é tão grande que a possibilidade de erro é pequeno. Entretanto, o erro de diagnóstico por um/a médico/a pode ter efeitos devastadores. E, no caso em discussão, gera consequências sociais que não me parecem estar sendo consideradas.

O diagnóstico de TEA é realizado através de relato de pessoas que convivem com uma criança ou pelo autorelato, se o/a “paciente” é adolescente ou adulto/a. Considerando as informações amplamente difundidas acerca das características de autismo, uma pessoa inteligente pode facilmente induzir um/a médico/a a indicar este diagnóstico. Para evitar que esta falha ocorra, a classe médica tem recorrido a profissionais em avaliação neuropsicológica. Através de testes psicométricos, entrevistas, observações em consultórios, psicóloga/os têm oferecido suas análises que, por sua vez, embasam o direcionamento e definição diagnóstica. Se visualizarmos rapidamente que o “sintoma” isolamento social pode ser classificado como personalidade esquizóide, esquizotípica, casos de esquizofrenia, fobia social, hikikomori por exemplo; podemos pensar em quantos erros temos produzido por meras tendências.

Outro problema, bastante grave em meu entendimento, relaciona-se ao financiamento oferecido pela indústria farmacêutica para a elaboração do DSM-V. Este financiamento foi denunciado internacionalmente e duramente criticado durante os trabalhos da quinta edição do manual a ponto de uma revisão já ter sido publicada em 2023 (o DSM-V é de 2013). O crescimento de casos com o diagnóstico em estudo cresceu sensivelmente após a publicação do DSM-V. E estes casos tem sido medicados com drogas que podem gerar dependência e efeitos colaterais preocupantes. A medicalização de nossas crianças é algo bastante sério, terá efeitos em seu desenvolvimento, em sua aprendizagem, em seu modo de se relacionar com pares. Tenho acompanhado perturbações comportamentais a partir de interações medicamentosas e/ou de efeitos colaterais de medicamentos administrados em estudante autista de sete anos. Esta criança ainda não apresenta linguagem comunicativa e demonstra um nível de sofrimento que angustia a todos que estão ao seu redor. A experimentação medicamentosa pode gerar grande sofrimento ao invés de sanar problemas. Retornar ao estado anterior à medicação deletéria tem demorado mais do que o desejável. Esta experimentação é delicadíssima se considerarmos que o funcionamento cerebral de uma criança autista é diferente do funcionamento de uma criança neurotípica.

Concluindo esta análise, é importante indicar o aumento do volume de procura por consultas neurológicas e neuropsicológicas nos últimos cinco anos. Eu não tenho este levantamento de dados, mas acompanho o crescimento nos valores das consultas e na frequência com que ouço as famílias buscando por tais serviços. Vejo com bastante crítica as pessoas serem encaminhadas para neurologista ao invés de psiquiatras, como deveria ser o caso já que não há exames que detectem os marcadores físicos de autismo.

Saímos há três anos de uma pandemia devastadora. Os efeitos da covid-19 ainda estão sendo sentidas nas vidas de todos nós. As ausências sentidas, as sequelas físicas que a doenças nos deixou, o receio de reincidivas somam-se à nossa defasagem social. Ainda não nos recuperamos do efeito da quebra de convívio físico entre cidadã/os, as suscetibilidades geradas pelo isolamento, as dificuldades de compaixão. Estar consigo mesmo durante a última pandemia teve efeito deletério em algumas pessoas mais do que em outras? Este fator está sendo analisado pela classe médica? Todas as pessoas tiveram dificuldades para retornar aos desafios diários que nos impõe o convívio social. Será que todos nós já superamos estes óbices? Será que pessoas menos sociáveis estão sendo diagnosticadas adequadamente? Ou terá surgido um novo quadro nosológico?

[1] O cordão de girassol é um acessório utilizado como símbolo de conscientização e apoio a pessoas autistas e com deficiências ocultas. Inspirado na beleza e resiliência dos girassóis, esse cordão representa solidariedade e compreensão. Foi instituído pela lei nº 14.624 de 17 de julho de 2023. Fonte:https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2023/07/19/cordao-com-desenhos-de-girassol-para-deficiencias-vira-simbolo-nacional, acessado em 28/11/2024.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Novo tipo de autismo?

Gosto muito de inquietações e provocações. Creio que todas as profissões possibilitam interseções de atuações profissionais de tempos em tempos. Já expus aqui que trabalho com variados profissionais e nesta oportunidade falo da psiquiatria.

O órgão onde trabalho trata de avaliar alunos com objetivo de melhor adaptar a escola a suas idiossincrasias. Estas, por sua vez, devem estar previstas pela medicina para tanto. Aqui se faz a minha questão que vos apresento.

Temos três casos de alunos que não apresentam comportamento comum aos demais de sua idade, porém não se enquadram nos grupos de síndromes já catalogados pela ciência, ao que indica a dificuldade dos psiquiatras consultados pelas famílias em oferecer-lhes um diagnóstico.

Meus alunos apresentam segurança em si mesmos a ponto de não se intimidarem quando os adultos lhes indica que nenhuma outra criança faz o que ele está fazendo. Não apresentam linguagem compreensível ou qualquer angústia em relação a isto. São inteligentes, mas seu aprendizado se faz de modo diverso ao dos pares. Não há comportamento compulsivo. Apresentam interesses estranhos mas não são restritos. Lidam bem como os colegas, mas sua socialização é seletiva, não se envolvem muito. Brincam normalmente mas quase sempre sozinhos. São muito carinhosos e até dengosos. As outras crianças os respeitam, gostam deles, não insistem muito no contato caso não haja retribuição, não se deixam afetar por seu movimento totalmente descabido em sala de aula (claro que sob orientação da docente).

Estas crianças não apresentam comportamento compatível com transtorno global do desenvolvimento, não são deficientes mentais, não há problemas na audição, não são hiperativos nem têm problemas de atenção, não há transtorno afetivo tampouco.

Uma destas crianças é acompanhada por um conjunto de cientistas psicólogos na universidade. Sua mãe nos relata que os cientistas indicam ser desnecessário a rotulação dos sintomas da criança. Imagina se eu falo isso para minha chefe!

Estou expondo estes casos aqui porque em um universo de mil alunos, três é um número bem grande. Devo acrescentar que dois tem quatro e um tem cinco anos de idade. Não creio ser minha a função de pesquisar ou criar um novo nome para o que estas crianças apresentam.

Uma coisa eu e minha parceira pedagoga e psicopedagoga temos certeza, nossa instituição terá que inventar uma nova forma de atender estas crianças porque é função do estado oferecer educação e o que nós estamos oferecendo elas estão recusando.

Creio que meu objetivo de inquietação foi atingido. Informo ainda que as questões que a prática impõem são expostas neste blog para potencializar a formação dos futuros psicólogos desde que curiosos e realmente vocacionados.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ainda sobre o autismo

Os transtornos globais do desenvolvimento (autismo, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, síndrome de Klinefelter) se mostram de modos diferentes em cada indivíduo. Ultimamente, o número de casos diagnosticados tem aumentado muito, possibilitando o pensamento de que há uma "epidemia". Na verdade, os especialistas apontam para uma maior sensibilidade por parte dos profissionais para identificar o transtorno. Porém, ainda há despreparo para identificar os sintomas por parte da maioria dos profissionais.

Ouço de mães e pais a dificuldade em encontrar um diagnóstico para seus filhos/as. Há muitas nuances relacionadas a este problema em particular. Um deles é o desconhecimento dos sinais que indicam problemas na criança por parte de profissionais da saúde. Há estudos que apontam indícios já na primeira infância. O Instrumento de Vigilância Precoce do Autismo: manual e vídeo de C. Lampreia e M.M.R. Lima, já resenhado aqui, apresenta os comportamentos que crianças exibem e que estão ausentes em indivíduos autistas. Infelizmente, não é sempre que encontramos pediatras interessados em transtornos deste gênero. Além disso, os sinais são sutis e podem ser percebidos como temporários.

Outra ordem de questões se relaciona a aceitação do problema. Há famílias que ignoram o diagnóstico. Não percebem comportamentos estranhos, anti-sociais, descontextualizados em seus pequenos. Justificam-nos frente aos questionamentos de amigos e parentes próximos. Lidam com os sinais autísticos como se fossem normais. De fato o são em seu filho, mas não são esperados ou aceitos socialmente. Esta ação dos genitores é justificada pela recusa em ver o filho ou a filha com anormalidades. Ou ainda, recusam-se a admitir um problema.

Há relatos de que bebês autistas são muito quietos. Os pais dos alunos que diagnostiquei apontam para pouco choro e boa adaptação na primeira fase da vida. Na verdade, os sinais podem ser interpretados como baixo envolvimento social, já que o choro é uma forma de comunicação e a peraltice, uma busca de conhecimento sobre o mundo. Além disso, o apego à rotina típico nas pessoas que apresentam transtornos globais do desenvolvimento (TGD) reduz o efeito devastador do problema quando respeitada pelos demais. Os pais também se acostumam com a rotina e a aceitam. Essa "tranquilidade" aumenta o tempo para se chegar a um tratamento adequado. Quanto mais cedo há um diagnóstico, mais rapidamente pode-se ter efeitos benéficos observáveis.

A universalização da educação, com obrigatoriedade de frequencia institucional, possibilita que as crianças entrem em contato com profissionais com outra formação, além da médica. Esta possibilidade permite que o estranhamento se concretize e se fortaleça, principalmente porque as/os educadoras/es comparam os comportamentos de seus alunos/as. Além disso, no caso do rendimento escolar não ser compatível com a turma, é obrigação das/dos docentes indicarem isto aos pais e a outras instâncias educacionais. Muitas vezes é este o momento em que o diagnóstico acontece.
Aqui exponho nossa responsabilidade enquanto psicóloga/os escolares. Precisamos ter noções de psicopatologia para identificarmos sinais autísticos e também devemos saber como anunciar a nossa suspeita de um diagnóstico tão difícil.

Os TGD não são considerados doenças e não há cura. A sociedade tem essa idéia de autismo. E ouvir que um filho pode ter esse diagnóstico não é nada fácil. Várias fantasias caem por terra. Os sonhos não são mais possíveis. As ambições com a criança devem ser reconstruídas. A simples suspeita de que a/o filha/o tem TGD pode levar a depressão, sensações de incompetência, pensamentos suicidas. Temos observado famílias se desintegrarem, casamentos serem desfeitos e afastamento paternos por dificuldades em aceitar ou se imaginar como genitor de uma criança com TGD.

A psicologia trata estas reações como o luto do filho saudável. Uma mãe me procurou, certa vez, e perguntou se esse luto tem prazo. Que tristeza! Não, não há. Não consigo imaginar como seria perder a minha mãe. Penso que choraria pelo resto da vida, sempre que me lembrasse dela depois que isso acontecesse. Talvez algumas pessoas sintam isto em relação a seus filhos/as com TGD. Elas não devem ser julgadas por se sentirem assim. Mais uma vez devemos ser empáticos/as, nos aproximarmos o máximo possível e acolhê-las em sua dor, em seu luto. A dor e o luto não são mensuráveis e não têm tempo. Faz parte do acolhimento dizer isto aos pais e às mães. Informar que eles podem chorar sempre por sua criança não ser como as demais, por não ter problemas que a maioria tem, que seu desenvolvimento acontece, mas de forma diferente. Eles não devem sentir culpa por ter estes sentimentos. Este acolhimento e posterior aceitação da emoção negativa possibilita um fortalecimento do/a cuidador/a da criança.

É extremamente importante observar cuidados ao se comunicar a suspeita e a definição do diagnóstico. Neste momento, é imperioso prever a dor dos genitores e acolhê-la. Não há como evitar tal emoção. Permitir que ela venha a tona e que possa ser experimentada é função nossa. A psicologia nos treinou para reduzirmos o impacto negativo da notícia. Temos obrigação de atuar neste sentido.

Estou sendo muito firme nesta proposição, porque já ouvi relatos de traumas advindos de diagnósticos apresentados de chofre. Muitos médicos não são treinados para oferecer este tipo de informação com delicadeza. E nós, psicólogos e psicólogas, não podemos nos furtar do nosso papel de facilitadores de emoções difíceis.

Nosso principal apoio são as possibilidades que se abrem após a nomeação da síndrome. As melhorias no processo de adaptação dos pequenos. As possibilidades de tratamentos com bons resultados. Quanto mais cedo for identificado o transtorno, melhor para o desenvolvimento do indivíduo. E os resultados positivos facilitam o enfrentamento por parte da família.

Como fiz anteriormente, indico o sítio do Movimento Orgulho Autista do Brasil (MOAB) e informo que há reuniões promovidas pelo MOAB entituladas Desabafo Autista. Nessas ocasiões, são convidadas todas as pessoas que, de alguma forma, estão envolvidas com o tema. Assim, mães, pais, psicólogos, professoras, diretores de escolas, orientadoras educacionais, terapeutas, autistas têm espaço para falar o que e como quiserem sobre sua vivência com pessoas com TGD. Essas reuniões são sempre emocionantes e esclarecedoras. Mostram-nos como é importante a possibilidade de auto-exposição quando nos encontramos em um lugar tão difícil tal qual o de cuidador de uma pessoa com TGD. Em Brasília, esses encontros acontecem uma vez por mês, preferencialmente nos terceiros sábados do mês. Indicarei a programação em breve.

Indico para leitura outra postagem deste mesmo blog:
http://atuarpsicologiaescolar.blogspot.com/2010/08/sobre-o-autismo.html
Neste endereço encontrarão o endereço do Movimento Orgulho Autista Brasil e links para o filme After Thomas: um amigo inesperado.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sobre o autismo

O autismo é entendido como um desvio no desenvolvimento normal de uma criança. Ele é classificado como transtorno global do desenvolvimento que, segundo o DSM-IV, deve manifestar os primeiros sintomas ainda na primeira infância, antes dos três anos de idade.

São sintomas de autismo atraso na aquisição da fala; ausência ou dificuldades no contato visual direto (olho no olho); falta de acomodação do bebê ao corpo do adulto quando em seu colo; não compartilhamento de atenção, surpresas, descobertas por parte da criança; ausência de verificação de aprovação/reprovação do adulto em relação às suas ações; apego a brinquedos bizarros ou improvisados; criatividade restrita; ecolalia; fala descontextualizada; restrições alimentares; apego a rotina e resistência a mudanças; comportamento estereotipado; dificuldades em interações pessoais; crises agressivas sem motivo aparente; auto-agressividade ou flagelação; fixação em determinados temas. Caso uma criança ou adolescente apresente um ou dois destes sintomas, deve-se observar atentamente seu comportamento. Quando houver suspeita, a família deve encaminhar a criança a um psiquiatra infantil.

As características principais de uma criança autista são dificuldades ou desvios na comunicação, socialização, psicomotricidade e no comportamento. As formas de manifestação destes elementos ocorre de forma bizarra. Algumas vezes o contato com essas crianças pode causar assombro.

Há famílias que não percebem que há algo errado com seus pequenos. Ainda não li nada sobre as reações de pais e mães frente a seus bebês com comportamentos tão diferentes. A classe médica não está preparada para identificar comportamentos característicos de autismo na primeira fase da vida. Mesmo com suspeita e relatório comportamental detalhado da escola, é raro um médico atestar o transtorno antes dos seis anos de idade. O diagnóstico é feito por exclusão, não há exames que detectem o transtorno.

A síndrome é muito comprometedora e impede as relações familiares corriqueiras. As famílias que contém um/a autista não admitem uma rotina comum e seus participantes adquirem sintomas relacionados à convivência com o/a sindrômico. A psicóloga clínica Ana Maria Bereohff nos alerta que devemos dar atenção aos irmãos de autistas. Como há uma ideia geral de que os pais morrem antes dos filhos, e sendo os autistas pessoas a priori dependentes, a/os irmã/os assume(m) a responsabilidade de cuidar. Algumas vezes essa assunção ocorre tão precocemente que a infância do irmã/o é podada. Estou acompanhando um caso em que o irmão de um autista deixa de brincar para ajudar a mãe a cuidar do outro. A mãe percebe o excesso e admite sair com os filhos separadamente para garantir a diversão do irmão, preservando-o.

A vida dos adultos também modifica-se radicalmente devido a sua convivência com atos anti-sociais dos filhos com autismo. Além disso, não é raro verificar separações de casais quando um dos cônjuges não se implica firmemente com o problema. Em geral, percebe-se uma tendência masculina neste comportamento, provavelmente devido a crença, em nossa sociedade, de que as crianças são de responsabilidade feminina. Esse dado não é científico na medida em que não foi realizada uma pesquisa empírica, mas observações dos casos que estamos estudando.

Entramos em contato com o movimento do Orgulho Autista que abarca familiares e profissionais que lidam com o autismo. Este movimento teve sua origem na sociedade estadunidense. Aqui em Brasília, o movimento é bastante forte e promove palestras com profissionais especializados pelo menos uma vez por ano e uma vez por mês há o Desabafo Autista quando os parentes, profissionais que lidam com autistas e os próprios acometidos se expressam livremente sobre a questão. Esses são momentos tão ou mais ricos quanto palestras com profissionais, posto que trata-se da realidade em relatos emocionantes contrastando com o distanciamento que a sistematização de conhecimentos provoca.

A psicóloga Ana Maria Bereohff alerta para cuidados na avaliação psicológica de autistas. É necessário apresentar um ambiente rico em possibilidades e recursos para se identificar o interesse do acometido. Esse interesse pode ser detectado também através do discurso dos pais e dos profissionais da escola. Diz ainda a colega que se deve estabelecer metas possíveis para o tratamento psicoterápico. Ela sugere a leitura do livro “O estranho caso do cachorro morto” que se encontra em fase de filmagem para o cinema.

Há um filme que narra a história real de uma família com um filho autista, suas dificuldades e o estabelecimento de comunicação com o pequeno. O filme está disponível no U-Tube e chama-se “Thomas: um amigo inesperado”. O título original é “After Thomas”.

Mais informações na postagem Ainda sobre o autismo:
http://atuarpsicologiaescolar.blogspot.com/2010/10/ainda-sobre-o-autismo.html

http://movimentoorgulhoautista.ning.com/

Links para o filme After Thomas

http://www.youtube.com/watch?v=7PhRJKcwHeY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=RPK_SLApPyw&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=SDlV0_I358I&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=EVoZY3OwA3A&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=CT5XevwhFu8&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=mxrN06HEzx4&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=DSntI1Z1leA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=8mJwlYh-UQ0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=OkBrCYnHHbs&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=lb5gMpaAL64&feature=related