Eu trabalhei um período com uma orientadora educacional excepcional. Uma pessoa única, extremamente gentil, delicada. Ela me pediu auxílio para identificar uma criança porque eu estava, à época, me dedicando a intervenções no recreio. Ela descreveu a estudante acreditando que eu já saberia quem era. Tratava-se de uma menina que chegava à escola já com os cabelos desgrenhados, roupas descuidadas. Suas brincadeiras eram normais, mostrava comportamento social e era bem tranquila, sem questões outras além de sua aparência. Desconfiada de ser um caso de negligência familiar, a orientadora educacional passou-me a tarefa de identificação. Eu fazia alguma ideia de quem era a criança, mas não tinha me atentado ao caso.
É muito comum na escola notarmos um/a estudante com alguma
questão e não saber seu nome. Por vezes sabemos até em que turma estuda. Também
ouvimos sobre um caso relatado por professora(s), mas não sabemos identificar o/a
pequeno/a em questão por não conhecer sua feição física. Para resolver este
segundo problema temos o Carômetro já descrito neste blog. Trata-se de
uma pasta com a foto de toda/os a/os estudantes da escola com seus nomes. Este
instrumento é muito utilizado por professore/as que têm mais de trezentos (300)
estudantes. Eu tenho 260 estudantes sob minha responsabilidade. Preciso de
ajuda para identificar alguns às vezes.
No primeiro recreio após a conversa com a colega, me
aproximei da criança e perguntei seu nome. Hermes[1]. Foi a resposta. Não houve
dúvida alguma de seu gênero. O nome é bastante masculino e remete a um deus
grego.
Retornando à minha orientadora com a resposta, me aproximei
dela e anunciei que havia cumprido a tarefa que me deu:
-- O nome da criança é Hermes!
Minha orientadora abriu os olhos com o susto havido. Ela exclamou:
-- Vicky!!!
E eu:
-- Sim, eu também pensei isso.
Discutimos o caso rapidamente comigo acolhendo o sentimento
de constrangimento da colega que havia sido preconceituosa com a aparência de
um estudante devido ao comprimento de seus cabelos. Me solidarizei a ela para
reduzir sua auto-repreensão. Sim, fazemos avaliações errôneas. É possível e
perdoável. Devemos refletir sobre elas e corrigirmo-nos.
As crianças não têm marcadores de gênero em si mesmas. Nós,
adultos, vamos, através de nossos discursos, através da cultura, impondo comportamentos,
vestimentas, adereços, posturas, gestos para as crianças de forma a genderizá-las.
A criança que está se expressando naturalmente é enquadrada pelas adultas que
já estão genderizadas. A minha colega orientadora educacional é uma pessoa
muito cuidadosa com sua imagem pessoal, sua fala; raramente vi seu cabelo
solto. Seu cabelo sempre estava cuidadosamente arrumado e preso com adereços
coerentes com as roupas. Estas também estavam bem escolhidas, modernas,
adequadas ao ambiente de trabalho. Sua maquiagem muito delicada, em tons
suaves, esmeradas. Além de todo esse apuro visual, esta pessoa também apresenta
uma gentileza constante difícil de descrever. Uma menina desleixada saltou aos
olhos desta pessoa intensamente investida no cuidado de sua imagem.
“A menina” Hermes era o oposto da minha colega.
Por isto, a preocupação se apresentou. E é uma função da
escola: verificar se a criança está sendo bem cuidada, se não está sendo negligenciada.
Atualmente, temos uma criança em acompanhamento que está negligenciada
pela família. Pai e mãe resistem às nossas orientações a respeito de
higienização, alimentação, frequência a dentistas e médicos, acompanhamentos
escolares. É uma criança que nos preocupa sobremaneira porque percebemos um
grave atraso de desenvolvimento e todo nosso esforço tem gerado pouco
crescimento.
O registro digno de nota neste texto é a percepção de si
mesma como preconceituosa enquanto profissional e enquanto cidadã. Estamos
imersas nesta cultura que é machista, racista, classista, etarista... Por mais
que sejamos especialistas, estudemos racismo, gênero, façamos intervenções anti-classistas,
nos atentemos para não cometermos etarismo, somos passíveis de agir
erroneamente.
No exemplo que trago agora, ilustro o choque provocado em
minha parceira de trabalho perante a informação da menina ser, na realidade,
menino. Após a informação, não havia mais nada a fazer. Estava tudo certo. Pronto!
Mas aqui temos outra questão. Por que meninos podem chegar à
escola sem alinhamento de vestimenta, sem passar um pente no cabelo e as meninas,
não?
Questionei a orientadora educacional acerca do que faríamos.
Mesmo Hermes sendo um menino, ele está chegando na escola com aspecto
desleixado. Os meninos precisam ter também esta atenção porque os homens morrem
mais e mais cedo por não se cuidarem. Os homens sofrem amputação peniana porque
não se limpam! Eles não sabem, não conseguem, não foram ensinados sobre como se
limpar ou como lidar com seus corpos. Assim, precisamos despertar nos meninos o
auto-cuidado constante. Primar pela boa aparência, por exemplo.
Outras colegas nos avisaram que Hermes é uma miniatura do
pai. Desta informação concluímos que não havia o que fazer.
Outro erro!
Se o pai de Hermes (Zeus[2]) também não está se observando,
ele pode morrer prematuramente de forma decorrente a parcos cuidados consigo
mesmo. Nosso menino fica órfão.
Então também temos esta função de prestarmos atenção e de
informar às famílias que os cuidados com a aparência não são apenas sociais,
somente atributos em benefício da convivência social. Não. Os cuidados com
higiene são importantes para a preservação da saúde física e emocional. Se
considerarmos que as pessoas com aspecto cuidado têm melhor aceitação social, elas estarão
mais resguardadas quanto à saúde emocional, terão mais amizades. É importante
não ter halitose, que suas unhas estejam limpas e aparadas, que a
higiene matinal esteja feita (sem remelas, babas e ranhos secos), sem macucos.
Nosso país prima muito pela higiene, brasileira/os gostam
muito de banho. O contato com a água é muito satisfatório. Além disso, nosso
povo admira a pele lisa, hidratada, cabelos penteados em homens e mulheres. É muito importante
que nossos odores agradem.
Eu pertenço a um grupo do qual participa um senhor que
apresenta um odor muito característico e desagradável. Os outros homens não
conseguem falar com ele sobre este assunto. As pessoas se afastam, não querem
permanecer perto dele prejudicando o desempenho do grupo como um todo. Nosso
líder enfrenta dificuldades por causa deste problema. Vejam a importância deste
tema! É necessário que as pessoas se lavem. Ai, como é difícil tratar deste
tema! As pessoas precisam ter bons odores para que consigam ficar próximas umas
das outras. Este é um dos aspectos que precisam ser tratados para que as
pessoas permaneçam em contato. É possível ter amigos desprendendo mal odor?
Somente o Cascão consegue ter amigos fiéis cheirando a caminhão de lixo. O senhor
exemplificado neste texto é isolado pelo grupo. Ele é meu amigo, ele tem uma
conversa boa, mas é difícil ficar perto dele. Ele está sempre com mau cheiro.
Quem vai falar com ele? Eu já me propus a tratar do assunto diretamente, mas
ainda não consegui fazê-lo. O que é possível fazer por uma pessoa com este
problema? Falar sobre o cheiro do outro é muito íntimo. Quem tem esse papel?
Uma de nossas meninas (nove anos) apresentava um odor muito
forte. A diretora me procurou informando sobre o mau odor e a reclamação das
outras crianças em relação a pequena. A família já tinha sido chamada a
realizar a orientação sobre higienização e não obteve sucesso. A menina já estava sendo
isolada pelas demais. Eu já conhecia a criança e, confesso, nunca senti os tais
maus cheiros. Chamei-a para conversar, o que não era incomum. Tratei do assunto
com segurança e objetividade. A pequena me relatou que dispunha de uma bolsinha
com desodorante e alguns outros cosméticos e apetrechos. Perguntei se havia uma toalhinha e
ela assentiu. Então, eu a ensinei a usar a toalhinha ao final do tempo de recreio,
lavando suas axilas com a ponta da toalha molhada com água e sabão, enxaguando
e enxugando com outra ponta. Em seguida, aplicando o desodorante novamente. O
problema da menina foi solucionado. Questionei a diretora e outras crianças
sobre os odores típicos dela um mês depois de minha intervenção e recebi informações
de ausência de odores fétidos. Foi fácil? Não, mas resolvemos um problema
persistente que direção e família não conseguiram solucionar.
Na escola, tratamos do assunto com a família do/a estudante.
Nesta ocasião, que nós atinjamos também os pais. Continuando com mau cheiro,
mau aspecto, provavelmente você assustará as pessoas. É uma questão de estilo?
Certo. Ensinemos às crianças que elas devem estar limpas, que saiba lavar as
partes íntimas: meninas e mulheres devem afastar os grandes lábios para fazer a
higiene e meninos e homens devem puxar o prepúcio para lavar adequadamente seus
pênis. Eu ensinei isto a muitas pessoas, mas não ensinei coletivamente para
toda a minha comunidade escolar. Penso em como fazê-lo.
Infelizmente para nossos pudores individuais, felizmente
para a saúde de nossas crianças e futuros homens e mulheres, psicólogas
escolares podem tratar do assunto sem sermos criticadas. A higienização tem sido
tratada pelas professoras e orientadoras educacionais historicamente.
Preconceitos e higienização são temas possíveis de serem
tratados em nossas orientações às famílias coletiva ou individualmente.
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