domingo, 20 de setembro de 2026

Famílias Refratárias às Orientações Oferecidas

Tenho notado famílias que se desdobram para fazer a vontade dos filhos. Elas justificam, apoiam e defendem os filhos quando eles fazem coisas que não são aceitas, são execráveis ou inadmissíveis.

Eu comecei a analisar estas questões pensando na autorização que os homens dispõem em nossa cultura. Esta cultura que é (ainda) falocêntrica, que permite que os homens façam tudo que queiram em muitas situações. Às vezes, um homem fala algo que, nós, mulheres, teríamos vergonha, caso falássemos ou fizéssemos. E eles simplesmente fazem e tudo bem, a vida segue.

Exemplifico: algumas amigas se encontraram e tiveram a ideia de reunir nosso grupo. Através do aplicativo para celulares WhatsApp, as poucas amigas conseguiram congregar mais de oitenta pessoas rapidamente. As conversas versavam sobre momentos históricos gerais, as saudades dos tempos de convivência e possibilidades de reuniões presenciais. Um dos colegas entrou no grupo e iniciou expressões que desagradavam o conjunto como um todo. As demais componentes do grupo sinalizavam que suas ideias estavam sendo inconvenientes e desagregadoras. A resposta do colega era de provocação de discussão, de incentivo ao debate científico das situações abordadas por ele. Seu comportamento desagradável se manteve e o grupo se dissolveu com a saída de mais da metade do/as componentes. Percebendo o efeito desagregador do colega, o abordei direta e individualmente em separado pela mesma via de comunicação. Questionei sobre sua sensação ao perceber que as pessoas saíam do grupo devido às suas opiniões e intervenções. Ele me respondeu que as pessoas estavam saindo por vontade própria e não por consequência de suas colocações. Ele não estava envolvido com a decisão das pessoas em sair ou permanecer. Compreendi que meu colega não percebia sua responsabilidade sobre os efeitos de suas ações no comportamento das demais pessoas do conjunto. Insisti indicando falas ainda visíveis no grupo, recentes, que mencionavam suas ideias como justificativas para o afastamento. Ele manteve o mesmo discurso, relatando que apenas expressava livremente suas ideias. Seu objetivo não era de retirar pessoas do grupo, mas apresentar suas opiniões. Assim, a saída de quaisquer pessoas não se referia a ele de modo algum.

Nós, na escola, explicamos às crianças que é frequente a ocorrência de agressões físicas involuntárias. É comum nos chocamos com outra pessoa e podemos até machucá-las enquanto fazemos um movimento natural ou envolvido em uma brincadeira. Devemos pedir desculpas quando isto acontece. Desta forma, estamos preparando as crianças a se responsabilizarem pelos efeitos do que fazem e falam, mesmo quando seus resultados desagradáveis não estivessem em seus planos. Isto permite o início do comportamento compassivo. É possível magoarmos alguém sem termos esta intenção. Compreender esta possibilidade é anterior à capacidade de se posicionar no lugar do outro, simular o que sentiríamos, perceber o mal-estar alheio e, efetivamente, nos retratarmos de forma adequada e verdadeira.

Eu não consegui fazer este exercício com meu colega já adulto. Meu objetivo era compreender o entendimento dele acerca da questão que eu percebia durante as trocas no grupo de WhatsApp. Eu já tinha chegado à minha meta. Preferi não prosseguir em minha investigação e/ou intervenção por sentir um intenso mal-estar em mim mesma.

Percebo muitos meninos na posição de não responsabilização pelos efeitos de seus atos em outras pessoas. Por algum tempo, pensei que as famílias agiam desta forma permissiva com seus meninos. Entretanto, lembrei-me recentemente que conheço uma adolescente que é tratada desta forma por sua família.

A mãe desta adolescente, vamos chamá-la T., defende tudo o que ela faz. A própria mãe percebe que a moça faz coisas indefensáveis, mas a defende. A moça é educada, orientada, sabe que suas ações são ruins, condenáveis, inaceitáveis, mas as realiza. E assim age porque a família acoberta, ela jamais será rechaçada pelos seus entes amados. Em momento algum, esta moça é ameaçada em seu âmago. Ela faz o que quer. Para minhas/meus leitora/es terem ideia, T. já tentou suicídio muitas vezes, mais de cinco, com objetivo de manipular sua família. A própria mãe me relatou os motivos das tentativas de autoextermínio um a um: para que a mãe fizesse o que ela desejava à época.

Assim, não temos aqui uma questão de gênero. Trata-se de uma questão humana. Ignoro como classificar esta situação.

Estamos acompanhando o caso de um menino (Q.) de oito anos. Q. é intratável. Ele não possui trato interpessoal: não cumprimenta as pessoas, não respeita quem se dirige a ele, vira o rosto quando se fala diretamente a ele, responde de forma agressiva, manda meninas calarem a boca mesmo se não estão se referindo ou brincando com ele, agride colegas verbal e fisicamente, não aceita comandos. Parece se tratar de um caso de transtorno opositor desafiador (TOD).

Eu não penso em diagnósticos antes da oferta de educação doméstica. Explico: nós não nascemos prontos para o convívio social. Somos gregários. Precisamos das pessoas para nos tornarmos humanos. E é a aproximação e a convivência entre pessoas, com suas dificuldades e desafios, que nos transforma em seres humanos. Cumprimentar ao encontro; conhecer outra pessoa; fazer contato visual; sorrir; solicitar licença para me mover; aprender a escutar o outro, o ambiente, a Natureza, a si; não agredir ao mero sinal de desconforto etc. Aprender a conviver é tão extenso que merece um livro inteiro. Confesso que já tive intenção de enfrentar o desafio de escrever uma obra com este tema tão necessário o é para as famílias. Somente depois de submetido a um “programa” sério de educação doméstica, poderemos oferecer um diagnóstico para uma pessoa. Muitos casos de transtorno de déficit de atenção com/sem hiperatividade (TDAH) foram solucionados através de orientações sobre oferta de limites claros e firmes, higiene de sono, afeto entre entes da família.

Casos como o de Q. acima descrito necessitam vencer um óbice em acréscimo: a resistência familiar.

T., Q. e outras crianças que conheci têm em comum alta inteligência. T. tem várias habilidades extraordinárias. É uma pessoa encantadora. Q. é inteligente, mas já demonstra um atraso em relação aos colegas da mesma idade por não receber as informações de sua professora. Perdendo aprendizado, seu desenvolvimento cognitivo mostra-se mais lento. A família, entretanto, insiste em sua super-dotação. A equipe escolar ainda não percebeu qual a área das altas habilidades de Q., apesar de ter identificado sua cognição privilegiada.

A família de Q. vê problemas no comportamento pernicioso do filho. Ela percebe questões emocionais e terceiriza sua solução, ignorando as orientações da equipe escolar. A terceirização dos cuidados com suas crianças é a contratação de especialistas objetivando a oferta do suporte necessários aos infantes.

Como a família de Q. não compreende o poder que possui perante o desenvolvimento do filho, nós dispararemos serviços estatais disponíveis. Através da formação de redes interinstitucionais, indicaremos o caso para a assistência social. Esta situação nos é assaz frustrante. Nós temos todo o instrumental para a mudança de comportamento de Q., mas não conseguimos proporcionar a mudança de comportamento da família de Q. necessária e fundamental ao melhor desenvolvimento dele.

A família percebe que Q. apresenta auto-estima baixa, envolve-se em conflito constantemente, há tendência ao isolamento, é agressivo, é muito desrespeitoso. Mãe e pai explicam estes comportamentos como consequência de suas altas-habilidades. Após muitas reuniões de orientação à família e nenhuma alteração comportamental em Q., nossa equipe decidiu por encaminhar o caso ao Centro de Referência Especializada em Assistência Social (CREAS), buscar um contato diferente com o estudante de forma a oferecer a educação que entendemos ausente, apresentar a importância das pessoas para a saúde e o desenvolvimento de cada um de nós, sem desistir de orientar a família.

Lembrando do caso de T., percebo a possibilidade de diagnósticos temíveis, terríveis. A mãe de T., discutindo o caso comigo há alguns anos, relatou ter aventado a ideia de a filha ser psicopata. A mãe de Q. também sugeriu este diagnóstico à equipe escolar em uma de nossas reuniões. Ela se referiu a este diagnóstico questionando se nós havíamos pensado nisto. Atentem-se ao perigo que esta situação envolve. Um diagnóstico de transtorno de personalidade, sociopatia ou psicopatia não são plausíveis na infância ao meu ver. Tratar sobre estas classificações em uma escola de ensino fundamental deve ser visto com extrema cautela por parte de profissionais da psicologia. Profissionais da pedagogia não são qualificadas a proferirem diagnósticos de saúde mental.

O afastamento da responsabilidade da família sobre o comportamento do próprio filho me parece bastante assustador. Em geral, há sucesso nas orientações oferecidas às famílias com efetiva alteração do comportamento infantil. Entretanto existem famílias refratárias ao nosso trabalho. Agindo desta forma, provoca-se uma cristalização de comportamentos perniciosos e, consequentemente, há a necessidade de diagnósticos, tratamentos terapêuticos e medicamentosos. A família de Q. não se percebe capaz de alterar o curso do desenvolvimento do filho.

Devemos pensar no grande prejuízo causado à criança em questão. Q. será o maior prejudicado pelo afastamento de colegas de escola devido ao seu comportamento agressivo. Ele terá seu desenvolvimento sócio-afetivo influenciado pelo consequente isolamento. Seu potencial intelectual também será afetado pela redução de interlocutores potenciais, além da resistência já percebida quanto às informações oferecidas pela professora (atual e futuras, se nada mudar).

O meu foco de trabalho é adulto. É comum receber expressões de estranhamento quando apresento esta minha opção. Eu trabalho com minhas professoras e famílias para gerar mudanças na/os estudantes sob minha responsabilidade. Considerando o potencial de alteração de comportamento(s) da criança gerado por parte da/os adulta/os afetivamente mais próximos à pequena, o envolvimento, confiança e congraçamento entre psicóloga e mãe/pai se mostra fundamental. Sem este laço, teremos pouco sucesso. E é na realização deste rapport que, algumas vezes, visualizamos possíveis diagnósticos parentais. Algumas pessoas precisam de mais apoio, maior contato, investimento, de forma a garantir-lhes a confiança e o início do trabalho em conjunto pelo/a estudante.

Quando a família é impermeável às nossas ofertas, após todos os recursos terem se esgotado, nos concentramos diretamente no/a estudante enquanto está sob nossa responsabilidade, enquanto está na escola efetivamente. Neste caso, deixamos de convidar a família. Caso tenhamos sucesso, nos felicitamos mutuamente dentro da equipe. Caso não, encaminhamos o caso para outros serviços disponíveis nas áreas da saúde e da assistência social. Esta nossa atitude institucional reflete a observância dos dispositivos legais da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente sob os quais estamos sujeitas e devemos fazer cumprir. As crianças devem ser cuidadas pelo Estado e pela família. Nós somos as representantes do Estado nestes casos.

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