Tenho notado famílias que se desdobram para fazer a vontade dos filhos. Elas justificam, apoiam e defendem os filhos quando eles fazem coisas que não são aceitas, são execráveis ou inadmissíveis.
Eu comecei a analisar estas questões pensando na autorização
que os homens dispõem em nossa cultura. Esta cultura que é (ainda)
falocêntrica, que permite que os homens façam tudo que queiram em muitas
situações. Às vezes, um homem fala algo que, nós, mulheres, teríamos vergonha,
caso falássemos ou fizéssemos. E eles simplesmente fazem e tudo bem, a vida
segue.
Exemplifico: algumas amigas se encontraram e tiveram a ideia
de reunir nosso grupo. Através do aplicativo para celulares WhatsApp, as poucas
amigas conseguiram congregar mais de oitenta pessoas rapidamente. As conversas
versavam sobre momentos históricos gerais, as saudades dos tempos de
convivência e possibilidades de reuniões presenciais. Um dos colegas entrou no
grupo e iniciou expressões que desagradavam o conjunto como um todo. As demais
componentes do grupo sinalizavam que suas ideias estavam sendo inconvenientes e
desagregadoras. A resposta do colega era de provocação de discussão, de
incentivo ao debate científico das situações abordadas por ele. Seu
comportamento desagradável se manteve e o grupo se dissolveu com a saída de
mais da metade do/as componentes. Percebendo o efeito desagregador do colega, o abordei direta e individualmente em separado pela mesma via de comunicação.
Questionei sobre sua sensação ao perceber que as pessoas saíam do grupo devido
às suas opiniões e intervenções. Ele me respondeu que as pessoas estavam saindo
por vontade própria e não por consequência de suas colocações. Ele não estava
envolvido com a decisão das pessoas em sair ou permanecer. Compreendi que meu
colega não percebia sua responsabilidade sobre os efeitos de suas ações no
comportamento das demais pessoas do conjunto. Insisti indicando falas ainda
visíveis no grupo, recentes, que mencionavam suas ideias como justificativas
para o afastamento. Ele manteve o mesmo discurso, relatando que apenas
expressava livremente suas ideias. Seu objetivo não era de retirar pessoas do
grupo, mas apresentar suas opiniões. Assim, a saída de quaisquer pessoas não se
referia a ele de modo algum.
Nós, na escola, explicamos às crianças que é frequente a
ocorrência de agressões físicas involuntárias. É comum nos chocamos com outra
pessoa e podemos até machucá-las enquanto fazemos um movimento natural ou
envolvido em uma brincadeira. Devemos pedir desculpas quando isto acontece.
Desta forma, estamos preparando as crianças a se responsabilizarem pelos efeitos do
que fazem e falam, mesmo quando seus resultados desagradáveis não estivessem em
seus planos. Isto permite o início do comportamento compassivo. É possível
magoarmos alguém sem termos esta intenção. Compreender esta possibilidade é
anterior à capacidade de se posicionar no lugar do outro, simular o que
sentiríamos, perceber o mal-estar alheio e, efetivamente, nos retratarmos de
forma adequada e verdadeira.
Eu não consegui fazer este exercício com meu colega já
adulto. Meu objetivo era compreender o entendimento dele acerca da questão que
eu percebia durante as trocas no grupo de WhatsApp. Eu já tinha chegado à minha
meta. Preferi não prosseguir em minha investigação e/ou intervenção por sentir
um intenso mal-estar em mim mesma.
Percebo muitos meninos na posição de não responsabilização
pelos efeitos de seus atos em outras pessoas. Por algum tempo, pensei que as
famílias agiam desta forma permissiva com seus meninos. Entretanto, lembrei-me
recentemente que conheço uma adolescente que é tratada desta forma por sua
família.
A mãe desta adolescente, vamos chamá-la T., defende tudo o
que ela faz. A própria mãe percebe que a moça faz coisas indefensáveis, mas a
defende. A moça é educada, orientada, sabe que suas ações são ruins,
condenáveis, inaceitáveis, mas as realiza. E assim age porque a família
acoberta, ela jamais será rechaçada pelos seus entes amados. Em momento algum,
esta moça é ameaçada em seu âmago. Ela faz o que quer. Para minhas/meus leitora/es
terem ideia, T. já tentou suicídio muitas vezes, mais de cinco, com objetivo de
manipular sua família. A própria mãe me relatou os motivos das tentativas de
autoextermínio um a um: para que a mãe fizesse o que ela desejava à época.
Assim, não temos aqui uma questão de gênero. Trata-se de uma
questão humana. Ignoro como classificar esta situação.
Estamos acompanhando o caso de um menino (Q.) de oito anos.
Q. é intratável. Ele não possui trato interpessoal: não cumprimenta as pessoas,
não respeita quem se dirige a ele, vira o rosto quando se fala diretamente a
ele, responde de forma agressiva, manda meninas calarem a boca mesmo se não
estão se referindo ou brincando com ele, agride colegas verbal e fisicamente,
não aceita comandos. Parece se tratar de um caso de transtorno opositor
desafiador (TOD).
Eu não penso em diagnósticos antes da oferta de educação
doméstica. Explico: nós não nascemos prontos para o convívio social. Somos
gregários. Precisamos das pessoas para nos tornarmos humanos. E é a aproximação
e a convivência entre pessoas, com suas dificuldades e desafios, que nos
transforma em seres humanos. Cumprimentar ao encontro; conhecer outra pessoa;
fazer contato visual; sorrir; solicitar licença para me mover; aprender a
escutar o outro, o ambiente, a Natureza, a si; não agredir ao mero sinal de
desconforto etc. Aprender a conviver é tão extenso que merece um livro inteiro.
Confesso que já tive intenção de enfrentar o desafio de escrever uma obra com
este tema tão necessário o é para as famílias. Somente depois de submetido a um
“programa” sério de educação doméstica, poderemos oferecer um diagnóstico para
uma pessoa. Muitos casos de transtorno de déficit de atenção com/sem
hiperatividade (TDAH) foram solucionados através de orientações sobre oferta de
limites claros e firmes, higiene de sono, afeto entre entes da família.
Casos como o de Q. acima descrito necessitam vencer um óbice
em acréscimo: a resistência familiar.
T., Q. e outras crianças que conheci têm em comum alta
inteligência. T. tem várias habilidades extraordinárias. É uma pessoa
encantadora. Q. é inteligente, mas já demonstra um atraso em relação aos
colegas da mesma idade por não receber as informações de sua professora.
Perdendo aprendizado, seu desenvolvimento cognitivo mostra-se mais lento. A
família, entretanto, insiste em sua super-dotação. A equipe escolar ainda não
percebeu qual a área das altas habilidades de Q., apesar de ter identificado
sua cognição privilegiada.
A família de Q. vê problemas no comportamento pernicioso do
filho. Ela percebe questões emocionais e terceiriza sua solução, ignorando as
orientações da equipe escolar. A terceirização dos cuidados com suas crianças é
a contratação de especialistas objetivando a oferta do suporte necessários aos infantes.
Como a família de Q. não compreende o poder que possui
perante o desenvolvimento do filho, nós dispararemos serviços estatais
disponíveis. Através da formação de redes interinstitucionais, indicaremos o
caso para a assistência social. Esta situação nos é assaz frustrante. Nós temos
todo o instrumental para a mudança de comportamento de Q., mas não conseguimos
proporcionar a mudança de comportamento da família de Q. necessária e
fundamental ao melhor desenvolvimento dele.
A família percebe que Q. apresenta auto-estima baixa,
envolve-se em conflito constantemente, há tendência ao isolamento, é agressivo,
é muito desrespeitoso. Mãe e pai explicam estes comportamentos como consequência
de suas altas-habilidades. Após muitas reuniões de orientação à família e
nenhuma alteração comportamental em Q., nossa equipe decidiu por encaminhar o
caso ao Centro de Referência Especializada em Assistência Social (CREAS),
buscar um contato diferente com o estudante de forma a oferecer a educação que
entendemos ausente, apresentar a importância das pessoas para a saúde e o
desenvolvimento de cada um de nós, sem desistir de orientar a família.
Lembrando do caso de T., percebo a possibilidade de
diagnósticos temíveis, terríveis. A mãe de T., discutindo o caso comigo há
alguns anos, relatou ter aventado a ideia de a filha ser psicopata. A mãe de Q.
também sugeriu este diagnóstico à equipe escolar em uma de nossas reuniões. Ela
se referiu a este diagnóstico questionando se nós havíamos pensado nisto.
Atentem-se ao perigo que esta situação envolve. Um diagnóstico de transtorno de
personalidade, sociopatia ou psicopatia não são plausíveis na infância ao meu
ver. Tratar sobre estas classificações em uma escola de ensino fundamental deve
ser visto com extrema cautela por parte de profissionais da psicologia.
Profissionais da pedagogia não são qualificadas a proferirem diagnósticos de
saúde mental.
O afastamento da responsabilidade da família sobre o
comportamento do próprio filho me parece bastante assustador. Em geral, há
sucesso nas orientações oferecidas às famílias com efetiva alteração do
comportamento infantil. Entretanto existem famílias refratárias ao nosso
trabalho. Agindo desta forma, provoca-se uma cristalização de comportamentos
perniciosos e, consequentemente, há a necessidade de diagnósticos, tratamentos
terapêuticos e medicamentosos. A família de Q. não se percebe capaz de alterar
o curso do desenvolvimento do filho.
Devemos pensar no grande prejuízo causado à criança em
questão. Q. será o maior prejudicado pelo afastamento de colegas de escola
devido ao seu comportamento agressivo. Ele terá seu desenvolvimento sócio-afetivo
influenciado pelo consequente isolamento. Seu potencial intelectual também será
afetado pela redução de interlocutores potenciais, além da resistência já
percebida quanto às informações oferecidas pela professora (atual e futuras, se
nada mudar).
O meu foco de trabalho é adulto. É comum receber expressões
de estranhamento quando apresento esta minha opção. Eu trabalho com minhas
professoras e famílias para gerar mudanças na/os estudantes sob minha
responsabilidade. Considerando o potencial de alteração de comportamento(s) da
criança gerado por parte da/os adulta/os afetivamente mais próximos à pequena, o
envolvimento, confiança e congraçamento entre psicóloga e mãe/pai se mostra
fundamental. Sem este laço, teremos pouco sucesso. E é na realização deste rapport
que, algumas vezes, visualizamos possíveis diagnósticos parentais. Algumas
pessoas precisam de mais apoio, maior contato, investimento, de forma a
garantir-lhes a confiança e o início do trabalho em conjunto pelo/a estudante.
Quando a família é impermeável às nossas ofertas, após todos
os recursos terem se esgotado, nos concentramos diretamente no/a estudante
enquanto está sob nossa responsabilidade, enquanto está na escola efetivamente.
Neste caso, deixamos de convidar a família. Caso tenhamos sucesso, nos
felicitamos mutuamente dentro da equipe. Caso não, encaminhamos o caso para
outros serviços disponíveis nas áreas da saúde e da assistência social. Esta
nossa atitude institucional reflete a observância dos dispositivos legais da
Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente sob os quais
estamos sujeitas e devemos fazer cumprir. As crianças devem ser cuidadas pelo
Estado e pela família. Nós somos as representantes do Estado nestes casos.
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