terça-feira, 22 de setembro de 2009

Desenvolvendo Habilidades Sociais em Adolescentes

É comum em nosso país a crença de que o Brasil não produz conhecimento. Crença equivocada e preconceituosa, que indica o ainda prevalente europocentrismo com “pitadas” de americanismo. A produção de conhecimento no Brasil é constante, forte e invejável. Outro problema mostra-se grave e talvez seja o causador da continuidade do pensamento equivocado supracitado. Esse refere-se à dificuldade de publicação já que nesta fase é que são conhecidas as produções, mesmo depois se saber que há algo acontecendo. É através de textos científicos que o reconhecimento do que foi realizado ocorre. Sem publicação nada existe de fato.

Acredito que as dificuldades que o português, enquanto língua, carrega e a cultura brasileira que supervaloriza o texto falado sejam coresponsáveis pelas dificuldades em publicar trabalhos científicos.

Sheila G. Murta ultrapassa essa suposta dificuldade e demonstra o quanto está implicada em fazer conhecer o trabalho que desenvolve e no qual acredita.
Seu livro Programa de Habilidades de Vida para Adolescentes: um manual para aplicação é um documento que os profissionais de prevenção dispõem para pronto uso. A introdução e segundo capítulo intitulado O processo de implementação do programa: cuidando para o programa dar certo apresentam a população que pode ser beneficiada pela proposta, os doenças e/ou transtornos que podem ser prevenidos e tratados através da aplicação, a justificativa para se trabalhar as habilidades de vida com adolescentes e jovens, o cuidado que o profissional deve ter para realizar o programa com efetividade e baixa frustração.

Com objetivo de expandir o conhecimento e presentear as pessoas que trabalham com jovens, a autora baseia sua proposta na Psicologia Positiva, na Teoria da Aprendizagem Social e no conceito de resiliência.

Um dos destaques que podemos aqui fazer é a lista de “habilidades sociais educativas” que o facilitador deve ter para obter sucesso na empreitada proposta. A lista não é simples, mas explicada ponto a ponto mostrando o que significa cada item e porque ele é importante para a realização do trabalho.

O livro de Murta apresenta um total de dezesseis encontros pormenorizadamente preparados para aplicação nos quais se trabalha habilidades sociais como identificação de habilidades pessoais; conscientização de auto-críticas; assertividade; uso dos próprios recursos para solução de problemas reais; administração de estresse; escuta empática; fazer amizades.

A Psicologia Preventiva nos ensina que habilidades sociais e redes sociais são elementos promotores de saúde psíquica e física que provocam a saúde social. Ao pensarmos nas comunidades carentes que se encontram fragilizadas pelos mais diversos motivos, este manual proposto por Murta pode ser considerado como um instrumento promotor de saúde comunitária (ou grupal) já que promove o ensino e treino de habilidades sociais que poderão formar redes sociais efetivas.

O livro tem como segundo subtítulo um resumo de seu conteúdo. Nele é possível perceber a abrangência de possíveis aplicadores, contextos, níveis sociais e efeitos benéficos:
“Um livro para profissionais de saúde, educação e assistência social usarem na comunidade para prevenir problemas emocionais e comportamentais entre adolescentes.”

A psicóloga Sheila Murta apresenta nesta obra sua face prática. É exemplo de profissional que publica pelo benefício que pode trazer a comunidade acadêmica e profissional prática, tendo em vista que a publicação é uma fase da pesquisa científica. Também é uma amostra de que a crença na baixa produção científica brasileira deve ser colocada de lado.

Murta, S.G. (2008). Programa de Habilidades de Vida para Adolescentes: um Manual para Aplicação. Goiânia: Porã Cultural.

sábado, 19 de setembro de 2009

O afeto como vacina anti-drogas

A recuperação de um dependente químico é longo e intenso nas palavras de Maria de Fátima R. Padin, Psicóloga e Coordenadora do Ambulatório de Adolescentes do UNIAD/UNIFESP. Padin apresentou o funcionamento do ambulatório em um workshop promovido pelo Adolescentro – Centro de Referência, Pesquisa, Capacitação e Atenção ao Adolescente em Família (Secretaria de Estado de Saúde – DF).

Padin fez questão de mostrar as dificuldades do processo de recuperação e salientou que não há ex-dependente químico, mas dependente em recuperação. As possibilidades de recaída são reais e devem ser monitoradas constantemente. No início da abstinência isto mostra-se com bastante agudeza1.

Ao final do workshop, todos nós questionávamos os custos do tratamento oferecido pelo Ambulatório da UNIAD. Quando finalmente alguém expôs a pergunta, Padin respondeu estar em torno de R$ 250,00... por dia. Ela informa que é difícil dizer o valor do tratamento pois há muitas avaliações em questão e a quantidade de especialistas envolvidos é proporcional aos danos provocados. Assim, quanto mais necessidade de tratamento maior o custo dele posto que diversos exames e terapêuticas serão oferecidas ao dependente químico em recuperação.
"O custo do tratamento sempre depende da avaliação. Que deve ser feita por equipe multidisciplinar (psicólogos-psicodiagnóstico e avaliação da gravidade da Dependência / psiquiatra- verificar comorbidades psiquiatricas/ pedagogas: avaliação acadêmica/ neuropsicólogas: investigação do funcionamento cerebral e avaliação clínica-hebiatra) Somente apos essa avaliação traçamos o plano de tratamento."
(Padin, em comunicação pessoal)
Alguns pacientes contam ainda com Acompanhantes Terapêuticos além do custo com o tratamento no ambulatório.

O incômodo que espero ter provocado nas/nos leitoras/es refere-se ao valor da prevenção. Os custos do tratamento foram até agora apresentados somente sob seu ângulo financeiro. E neste ponto o custo da prevenção que evita os danos causados pelo vício são ínfimos. Devemos contabilizar ainda os custos emocionais, afetivos, relacionais, familiares, laborais, patrimoniais, educacionais, orgânicos que a dependência química provoca. O impacto de um problema como esse em uma família é devastador conforme Padin nos relatou. A UNIAD conduz uma pesquisa nacional sobre esses impactos.

O esforço despendido para recuperação é imenso e envolve o próprio dependente, seus familiares, seu/sua companheiro/a e amigos/as.

Mais simples, muito mais barato e mais eficaz é o trabalho preventivo.

Como espaço privilegiado para a prevenção, a escola mostra-se mais uma vez como instituição de ponta para a realização deste trabalho. E nós, psicólogas/os escolares, somos as principais atrizes deste tipo de prevenção juntamente com as orientadoras educacionais.

É justo esclarecer que palestras sobre os perigos que as drogas trazem não são o bastante para evitar o uso, o consumo e o abuso de substâncias psicoativas. A iniciação às drogas acontece geralmente no ambiente familiar pelas mãos dos próprios pais e através do álcool.

Por este motivo, a orientação das famílias quanto a comportamentos, relacionamentos e eventos propícios ao estabelecimento de vício é essencial. Trabalhar a família particular ou coletivamente é necessário como prevenção efetiva. Dentro desta orientação deve haver informação sobre as substâncias psicoativas e sintomas do uso2; ensino de trocas afetivas não erotizadas3; comunicação efetiva com base na confiabilidade; estabelecimento e manutenção de momento compartilhado de ações; fortalecimento da família quanto ao seu papel educativo e afetivo3.

Esclarecemos que as famílias estão perdidas quanto à forma de educar seus filhos. Demonstram consciência de que o castigo físico não é adequado, porém não sabem estabelecer limites e restrições que demarquem a importância e a seriedade das regras. Conhecem o poder do Conselho Tutelar, respeitam sua ação e buscam-na para atuar junto às crianças. Eu, pessoalmente, sou procurada pelos pais que se sentem perdidos na educação dos pequenos. Neste contexto, nossa atuação dentro das escolas mostra-se essencialmente preventiva e, em alguns momentos, emergencial curativa.

O ensino da afetividade na comunicação e no contato físico intrafamiliar é básico para a prevenção do consumo de substâncias psicoativas e da busca de relacionamentos afetivos prejudiciais. A idéia é que se a criança e o adolescente têm sanadas suas necessidades afetivas, não procurará fora do lar relações que a satisfaçam. Principalmente, se há falha em algum sentido, a comunicação intrafamiliar não pode faltar. A/o psicóloga/o como agente de relações humanas privilegiado deve se colocar na posição de resgatar a comunicação e confiabilidade familiar. Aprofundamento neste sentido pode ser obtido em Bezerra & Linhares (2003).

E para os casos em que a família se nega a receber atendimento, o Conselho Tutelar deverá ser acionado. Nossa parceria com o CT costuma ser bem sucedida.

A política pública preventiva brasileira chega a ser ridícula. Leis que vinculem o funcionamento das escolas à presença do psicólogo escolar propiciarão uma queda nos custos do resgate dos consumidores de drogas, por exemplo. Trazemos neste espaço, os benefícios que representamos ao contexto escolar. Precisamos pressionar o poder público, não por corporativismo, mas como fator de saúde pública.

1.http://www.uniad.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=577&Itemid=155 III Semana do Adolescentro, em 19 de setembro de 2009.

2. Nicastri, S. (2003). Drogas: classificação e efeitos no organismo. Em: Secretaria de Estado de Saúde do DF. Adolescentes. Pensando Juntos. Manual do Facilitador.

3. Bezerra, V.C. & Linhares, A.C.B. (2003). A família, o adolescente e o uso de drogas. Em: Secretaria de Estado de Saúde do DF. Adolescentes. Pensando Juntos. Manual do Facilitador.

sábado, 5 de setembro de 2009

Redes Sociais

O estudo das redes sociais apresentou-me conhecimentos que os leigos intuem e que são extremamente importantes para a saúde mental. Com redes sociais queremos dizer que:

“as fronteiras do sistema significativo do indivíduo não se limitam à família nuclear ou extensa, mas incluem todo o conjunto de vínculos interpessoais do sujeito: família, amigos, relações de trabalho, de estudo, de inserção comunitária e de práticas sociais.” (p. 37)

Em Psicologia Ambiental estudamos planejamento urbano e, no escopo deste, a segurança. A principal informação que esta área da ciência traz é que uma rua é segura quando está sendo usada pelas pessoas e não quando há policiais fazendo-lhe a ronda. Assim, as pessoas na rua, ocupando-a, usando o espaço público é que efetivamente instala a segurança em um local, não sendo apenas uma sensação.

De maneira similar, quanto mais pessoas em nossas vidas, mais estamos seguros pessoal, social e psicologicamente. Para isso, precisamos nos fazer presentes nas vidas das pessoas e mostrar-lhes o quanto poderemos fazer falta. A busca mútua entre as pessoas parece ser uma vacina para nossa atual “histeria”: a depressão.

A compreensão de que cada pessoa pode atuar em funções diferentes também é bastante útil para não sobrecarregarmos as expectativas que temos. Nós e os outros nos colocamos em posições tais que devem ser respeitadas e utilizadas com cuidado. Esperar que uma pessoa atue de forma diferenciada que aquela que costuma atuar pode gerar frustração, desentendimentos desnecessários e rupturas. Na verdade, tal atitude pode ser reajustada quando se compreende os diferentes papéis que as pessoas têm nas nossas vidas, e que aquele comportamento inesperado não indica desinteresse.

As redes sociais têm como características estruturais:
Tamanho – números de pessoas na rede;
Densidade – conexão entre membros independentes do informante;
Distribuição – quantidade de indivíduos em cada grupo em estudo (família, amigos, comunidade, escola, trabalho, grupos desportistas – observadas as características de cada cliente);
Dispersão – distância entre os elementos da rede;
homo/heterogeneidade – diferenças etárias e sócio-culturais entre os componentes da rede.1

Os elementos da rede social podem ter diversas funções. Estas por sua vez podem ser exclusivas ou associadas. As funções são:
companhia social;
apoio social;
apoio emocional;
guia cognitivo e conselhos;
regulação social;
ajuda material e de serviços;
acesso a novos contatos.

Uma pessoa pode ser companhia social (acompanha a festas) e apoio emocional (nos casos em que há crises, o amigo mostra-se presente). Uma amiga pode ser apenas guia cognitiva e de conselhos, mas não ser boa em ajuda material devido a sua estrutura familiar super exigente e a falta de tempo.

Características e funções da rede social de um cliente (aluno, professor, pai de aluno, diretor da escola, auxiliar de serviços gerais) podem ser analisadas objetivando detectar melhores adaptações, explorações e ajustes para ultrapassar dificuldades psicológicas. A possibilidade de usar estas informações torna-se um importante instrumento clínico.

Solicito que busquem mais informações em

Sluzki, C.E. (1997). A rede social: proposições gerais. Em: C.E. Sluzki. A rede social na prática sistêmica: alternativas terapêuticas. São Paulo: Casa do Psicólogo.

posto que este nosso texto traz apenas um aperitivo do que realmente se conhece e instrumentaliza de redes sociais. Como sempre, trago para os leitores deste blog novidades para mim que considero úteis para os psicólogos escolares.