domingo, 20 de setembro de 2026

Índice

Objetivos de Criação (20/04/2009) 

Questões sobre a instituição escola

Dinâmica laboral de uma escola (27/09/2009)

O que espera a escola (20/07/2009)

Angústia (09/08/2009)

Quando começa o atendimento psicológico 

      (10/04/2010)

Utilizando a técnica da leveza (19/02/2010)

Acolher o problema (25/04/2009)

Reconhecimento de trabalho e frustração (21/04/2010)

Devolutivas de atendimento (10/04/2010)

Conselho de Classe (04/01/2011)

Questão Pedagógica (27/09/2025)

Facilitando o aprendizado (11/06/09)

Elaborando um plano de ação (02/01/2010)

A desistência em aprender ou da “falha” do sistema de 

    ensino tradicional (15/12/2010)

Comunhão Orientação Educacional (20/07/2009)

Sobre preconceitos e higiene (20/09/2026)

Avaliações institucionais ou o despreparo da/os 

    psicóloga/os (17/11/2011)

A presença da/o psicóloga/o na escola (24/04/2011)

 

Atuar Psicologia Escolar: temas próprios da nossa área

O poder psicológico (22/07/2009)

Valorização da profissão (04/07/2009)

Ciclo de vida na Psicologia Escolar (18/05/2011)

Prioridades (21/04/2009)

Um certo curso de escutatória (21/11/2009)

Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica 

    (26/12/2009)

Atuação preventiva (24/04/2011)

Lidando com racismo institucional (20/01/2025)

Sensibilização antirracista (30/01/2025)

A necessidade de relações interpessoais (11/04/2010)

Redes de Apoio (05/09/2009)

Parcerias para o trabalho em Psicologia Escolar 

    (22/04/2009)

Redes interinstitucionais (12/10/2009)

Famílias refratárias às orientações oferecidas (20/09/2026)

Necessidade de trocas afetivas (18/04/2010)

Efeitos da covid-19 (03/02/2025)

Relação professor/a – aluno/a (16/03/2011)

Valorizando propensões (06/07/2011)

Curso de prevenção do uso de drogas para educadores 

    de escolas públicas (21/11/2009)

O afeto como vacina anti-drogas (19/09/2009)

Sobre indisciplina coletiva (25/10/2009)

Um caso de indisciplina grave (27/09/2009)

Homofobia na escola (24/08/2009)

Possibilidades de gênero (05/11/2011)

Comportamentos femininos (20/04/2025)

Outros comportamentos femininos (20/04/2025)

Detalhes de educação (21/01/2011)

Famílias desestruturadas (13/08/2009)

Outros tipos de famílias (15/08/2009)

Violência contra educadores (18/10/2009)

Fortalecimento de ego (18/07/2010)

Jogos de computador e desenvolvimento cognitivo 

    (27/11/2010)

Jogos eletrônicos e sala de aula (13/03/2020)

Altos e baixos (15/12/2024)

Organização vital (16/11/2024)

Sobre ansiedade (24/11/2024)

 

Sobre o masculino e masculinidade

Paternagem (17/03/2014)

Paternidade (23/03/2014)

Paternidade e guarda compartilhada (21/04/2014)

Viva o futebol! (24/04/2014)

Ainda mais sobre futebol (15/12/2024)

Sobre erros e homens (16/11/2024)

Propiciando o desenvolvimento de pais (20/01/25)

O que um parto domiciliar pode nos ensinar? 

    (29/11/2019)

 

Intervenções psicológicas em grupo através de jogos comerciais

Tecnologia psicológica nacional (04/09/2011)

Utilizando jogos: Can Can (12/10/2011)

Utilizando jogos: Damas Chinesas (13/10/2011)

Utilizando jogos: Xadrez (13/10/2011)

Brincadeiras naturais (23/10/2011)

 

Medicalização da infância e diagnósticos na escola

Dificuldade de aprendizagem (20/08/2010)

Doenças escolares e desenvolvimento cognitivo 

    (08/06/2012)

Teste de inteligência: Matrizes Progressivas Coloridas 

    de Raven (11/09/2010)

Sobre o autismo (15/08/2010)

Ainda sobre o autismo (27/10/2010)

Novo tipo de autismo? (18/05/2011)

Mais ainda sobre autismo (11/12/2024)

Taare Zameen Par: Every Child is Special (Como Estrelas

    na Terra: toda criança é especial) (07/02/2010)

Sopa de letrinhas (14/12/2024)

Medicalização e pedagogia (23/06/2011)

Diferenças entre expressão de personalidade e falta de educação (27/09/2025)

 

Psicologia Escolar na mira: críticas a execução científica

Dificuldades de publicação e conhecimentos insabidos 

    (30/08/2009)

Desenvolvendo habilidades sociais em adolescentes 

    (22/09/2009)

Cultura e fragilidade humana (18/07/2010)

Ecologia Prática (20/06/2010)

Formação continuada (28/07/2010)

Projeto de Lei 3512 de 2008 (30/01/2010)

 

Outros assuntos

Cuidadores e autocuidado (21/03/2014)

As questões de R. (05/06/2010)

Conhecimentos de Psicologia usados em Psicologia 

    Escolar (18/07/2009)

Excesso de exigência parental (29/04/2009)

Separação por capacidade (07/06/2009)

Psicologia Escolar na internet – uma pesquisa de 

    conteúdo (18/11/2009)

Famílias Refratárias às Orientações Oferecidas

Tenho notado famílias que se desdobram para fazer a vontade dos filhos. Elas justificam, apoiam e defendem os filhos quando eles fazem coisas que não são aceitas, são execráveis ou inadmissíveis.

Eu comecei a analisar estas questões pensando na autorização que os homens dispõem em nossa cultura. Esta cultura que é (ainda) falocêntrica, que permite que os homens façam tudo que queiram em muitas situações. Às vezes, um homem fala algo que, nós, mulheres, teríamos vergonha, caso falássemos ou fizéssemos. E eles simplesmente fazem e tudo bem, a vida segue.

Exemplifico: algumas amigas se encontraram e tiveram a ideia de reunir nosso grupo. Através do aplicativo para celulares WhatsApp, as poucas amigas conseguiram congregar mais de oitenta pessoas rapidamente. As conversas versavam sobre momentos históricos gerais, as saudades dos tempos de convivência e possibilidades de reuniões presenciais. Um dos colegas entrou no grupo e iniciou expressões que desagradavam o conjunto como um todo. As demais componentes do grupo sinalizavam que suas ideias estavam sendo inconvenientes e desagregadoras. A resposta do colega era de provocação de discussão, de incentivo ao debate científico das situações abordadas por ele. Seu comportamento desagradável se manteve e o grupo se dissolveu com a saída de mais da metade dos componentes. Percebendo o efeito desagregador do colega, abordei direta e individualmente em separado pela mesma via de comunicação. Questionei sobre sua sensação ao perceber que as pessoas saíam do grupo devido às suas opiniões e intervenções. Ele me respondeu que as pessoas estavam saindo por vontade própria e não por consequência de suas colocações. Ele não estava envolvido com a decisão das pessoas em sair ou permanecer. Compreendi que meu colega não percebia sua responsabilidade sobre os efeitos de suas ações no comportamento das demais pessoas do conjunto. Insisti indicando falas ainda visíveis no grupo, recentes, que mencionavam suas ideias como justificativas para o afastamento. Ele manteve o mesmo discurso, relatando que apenas expressava livremente suas ideias. Seu objetivo não era de retirar pessoas do grupo, mas apresentar suas opiniões. Assim, a saída de quaisquer pessoas não se referia a ele de modo algum.

Nós, na escola, explicamos às crianças que é frequente a ocorrência de agressões físicas involuntárias. É comum nos chocamos com outra pessoa e podemos até machucá-las enquanto fazermos um movimento natural ou envolvido em uma brincadeira. Devemos pedir desculpas quando isto acontece. Desta forma, estamos preparando as crianças a se responsabilizar pelos efeitos do que fazem e falam, mesmo quando seus resultados desagradáveis não estivessem em seus planos. Isto permite o início do comportamento compassivo. É possível magoarmos alguém sem termos esta intenção. Compreender esta possibilidade é anterior à capacidade de se posicionar no lugar do outro, simular o que sentiríamos, perceber o mal-estar alheio e, efetivamente, nos retratarmos de forma adequada e verdadeira.

Eu não consegui fazer este exercício com meu colega já adulto. Meu objetivo era compreender o entendimento dele acerca da questão que eu percebia durante as trocas no grupo de WhatsApp. Eu já tinha chegado à minha meta. Preferi não prosseguir em minha investigação e/ou intervenção por sentir um intenso mal-estar em mim mesma.

Percebo muitos meninos na posição de não responsabilização pelos efeitos de seus atos em outras pessoas. Por algum tempo, pensei que as famílias agiam desta forma permissiva com seus meninos. Entretanto, lembrei-me recentemente que conheço uma adolescente que é tratada desta forma por sua família.

A mãe desta adolescente, vamos chamá-la T., defende tudo o que ela faz. A própria mãe percebe que a moça faz coisas indefensáveis, mas a defende. A moça é educada, orientada, sabe que suas ações são ruins, condenáveis, inaceitáveis, mas as realiza. E assim age porque a família acoberta, ela jamais será rechaçada pelos seus entes amados. Em momento algum, esta moça é ameaçada em seu âmago. Ela faz o que quer. Para minhas/meus leitora/es terem ideia, T. já tentou suicídio muitas vezes, mais de cinco, com objetivo de manipular sua família. A própria mãe me relatou os motivos das tentativas de auto-extermínio um a um: para que a mãe fizesse o que ela desejava à época.

Assim, não temos aqui uma questão de gênero. Trata-se de uma questão humana. Desconheço como classificar esta situação.

Estamos acompanhando o caso de um menino (Q.) de oito anos. Q. é intratável. Ele não possui trato interpessoal: não cumprimenta as pessoas, não respeita quem se dirige a ele, vira o rosto quando se fala diretamente a ele, responde de forma agressiva, manda meninas calarem a boca mesmo se não estão se referindo ou brincando com ele, agride colegas verbal e fisicamente, não aceita comandos. Parece se tratar de um caso de transtorno opositor desafiador (TOD).

Eu não penso em diagnósticos antes da oferta de educação doméstica. Explico: nós não nascemos prontos para o convívio social. Somos gregários. Precisamos das pessoas para nos tornarmos humanos. E é a aproximação e a convivência entre pessoas, com suas dificuldades e desafios, que nos transforma em seres humanos. Cumprimentar ao encontro; conhecer outra pessoa; fazer contato visual; sorrir; solicitar licença para me mover; aprender a escutar o outro, o ambiente, a Natureza, a si; não agredir ao mero sinal de desconforto etc. Aprender a conviver é tão extenso que merece um livro inteiro. Confesso que já tive intenção de enfrentar o desafio de escrever uma obra com este tema tão necessário o é para as famílias. Somente depois de submetido a um “programa” sério de educação doméstica, poderemos oferecer um diagnóstico para uma pessoa. Muitos casos de transtorno de déficit de atenção com/sem hiperatividade (TDAH) foram solucionados através de orientações sobre oferta de limites claros e firmes, higiene de sono, afeto entre entes da família.

Casos como o de Q. acima descrito necessitam vencer um óbice em acréscimo: a resistência familiar.

T., Q. e outras crianças que conheci têm em comum alta inteligência. T. tem várias habilidades extraordinárias. É uma pessoa encantadora. Q. é inteligente, mas já demonstra um atraso em relação aos colegas da mesma idade por não receber as informações de sua professora. Perdendo aprendizado, seu desenvolvimento cognitivo mostra-se mais lento. A família, entretanto, insiste em sua super-dotação. A equipe escolar ainda não percebeu qual a área das altas habilidades de Q., apesar de ter identificado sua cognição privilegiada.

A família de Q. vê problemas no comportamento pernicioso do filho. Ela percebe questões emocionais e terceiriza sua solução, ignorando as orientações da equipe escolar. A terceirização dos cuidados com suas crianças é a contratação de especialistas objetivando a oferta do suporte necessários às pequenas.

Como a família de Q. não compreende o poder que possui perante o desenvolvimento do filho, nós dispararemos serviços estatais disponíveis. Através da formação de redes interinstitucionais, indicaremos o caso para a assistência social. Esta situação nos é assaz frustrante. Nós temos todo o instrumental para a mudança de comportamento de Q., mas não conseguimos proporcionar a mudança de comportamento da família de Q. necessária e fundamental ao melhor desenvolvimento dele.

A família percebe que Q. apresenta auto-estima baixa, envolve-se em conflito constantemente, há tendência ao isolamento, é agressivo, é muito desrespeitoso. Mãe e pai explicam estes comportamentos como consequência de suas altas-habilidades. Após muitas reuniões de orientação à família e nenhuma alteração comportamental em Q., nossa equipe decidiu por encaminhar o caso ao Centro de Referência Especializada em Assistência Social (CREAS), buscar um contato diferente com o estudante de forma a oferecer a educação que entendemos ausente, apresentar a importância das pessoas para a saúde e o desenvolvimento de cada um de nós, sem desistir de orientar a família.

Lembrando do caso de T., percebo a possibilidade de diagnósticos temíveis, terríveis. A mãe de T., discutindo o caso comigo há alguns anos, relatou ter aventado a ideia de a filha ser psicopata. A mãe de Q. também sugeriu este diagnóstico à equipe escolar em uma de nossas reuniões. Ela se referiu a este diagnóstico questionando se nós havíamos pensado nisto. Atentem-se ao perigo que esta situação envolve. Um diagnóstico de transtorno de personalidade, sociopatia ou psicopatia não são plausíveis na infância ao meu ver. Tratar sobre estas classificações em uma escola de ensino fundamental deve ser visto com extrema cautela por parte de profissionais da psicologia. Profissionais da pedagogia não são qualificadas a proferirem diagnósticos de saúde mental.

O afastamento da responsabilidade da família sobre o comportamento do próprio filho me parece bastante assustador. Em geral, há sucesso nas orientações oferecidas às famílias com efetiva alteração do comportamento infantil. Entretanto existem famílias refratárias ao nosso trabalho. Agindo desta forma, provoca-se uma cristalização de comportamentos perniciosos e, consequentemente, há a necessidade de diagnósticos, tratamentos terapêuticos e medicamentosos. A família de Q. não se percebe capaz de alterar o curso do desenvolvimento do filho.

Devemos pensar no grande prejuízo causado à criança em questão. Q. será o maior prejudicado pelo afastamento de colegas de escola devido ao seu comportamento agressivo. Ele terá seu desenvolvimento sócio-afetivo influenciado pelo consequente isolamento. Seu potencial intelectual também será afetado pela redução de interlocutores potenciais, além da resistência já percebida quanto às informações oferecidas pela professora (atual e futuras, se nada mudar).

O meu foco de trabalho é adulto. É comum receber expressões de estranhamento quando apresento esta minha opção. Eu trabalho com minhas professoras e famílias para gerar mudanças na/os estudantes sob minha responsabilidade. Considerando o potencial de alteração de comportamento(s) da criança gerado por parte dos adultos afetivamente mais próximos à pequena, o envolvimento, confiança e congraçamento entre psicóloga e mãe/pai se mostra fundamental. Sem este laço, teremos pouco sucesso. E é na realização deste rapport que, algumas vezes, visualizamos possíveis diagnósticos parentais. Algumas pessoas precisam de mais apoio, maior contato, investimento de forma a garantir-lhes a confiança e o início do trabalho em conjunto pelo/a estudante.

Quando a família é impermeável às nossas ofertas após todos os recursos terem se esgotado, nos concentramos diretamente no/a estudante enquanto está sob nossa responsabilidade, enquanto está na escola efetivamente. Neste caso, deixamos de convidar a família. Caso tenhamos sucesso, nos felicitamos mutuamente dentro da equipe. Caso não, encaminhamos o caso para outros serviços disponíveis nas áreas da saúde e da assistência social. Esta nossa atitude institucional reflete a observância dos dispositivos legais da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente sob os quais estamos sujeitas e devemos fazer cumprir. As crianças devem ser cuidadas pelo Estado e pela família. Nós somos as representantes do Estado nestes casos.

Sobre Preconceitos e Higiene

Eu trabalhei um período com uma orientadora educacional excepcional. Uma pessoa única, extremamente gentil, delicada. Ela me pediu auxílio para identificar uma criança porque eu estava, à época, me dedicando a intervenções no recreio. Ela descreveu a estudante acreditando que eu já saberia quem era. Tratava-se de uma menina que chegava à escola já com os cabelos desgrenhados, roupas descuidadas. Suas brincadeiras eram normais, mostrava comportamento social e era bem tranquila, sem questões outras além de sua aparência. Desconfiada de ser um caso de negligência familiar, a orientadora educacional passou-me a tarefa de identificação. Eu fazia alguma ideia de quem era a criança, mas não tinha me atentado ao caso.

É muito comum na escola notarmos um/a estudante com alguma questão e não saber seu nome. Por vezes sabemos até em que turma estuda. Também ouvimos sobre um caso relatado por professora(s), mas não sabemos identificar o/a pequeno/a em questão por não conhecer sua feição física. Para resolver este segundo problema temos o Carômetro já descrito neste blog. Trata-se de uma pasta com a foto de toda/os a/os estudantes da escola com seus nomes. Este instrumento é muito utilizado por professore/as que têm mais de trezentos (300) estudantes. Eu tenho 260 estudantes sob minha responsabilidade. Preciso de ajuda para identificar alguns às vezes.

No primeiro recreio após a conversa com a colega, me aproximei da criança e perguntei seu nome. Hermes[1]. Foi a resposta. Não houve dúvida alguma de seu gênero. O nome é bastante masculino e remete a um deus grego.

Retornando à minha orientadora com a resposta, me aproximei dela e anunciei que havia cumprido a tarefa que me deu:

-- O nome da criança é Hermes!

Minha orientadora abriu os olhos com o susto havido. Ela exclamou:

-- Vicky!!!

E eu:

-- Sim, eu também pensei isso.

Discutimos o caso rapidamente comigo acolhendo o sentimento de constrangimento da colega que havia sido preconceituosa com a aparência de um estudante devido ao comprimento de seus cabelos. Me solidarizei a ela para reduzir sua auto-repreensão. Sim, fazemos avaliações errôneas. É possível e perdoável. Devemos refletir sobre elas e corrigirmos-nos.

As crianças não têm marcadores de gênero em si mesmas. Nós, adultos, vamos, através de nossos discursos, através da cultura, impondo comportamentos, vestimentas, adereços, posturas, gestos para as crianças de forma a genderizá-las. A criança que está se expressando naturalmente é enquadrada pelas adultas que já estão genderizadas. A minha colega orientadora educacional é uma pessoa muito cuidadosa com sua imagem pessoal, sua fala; raramente vi seu cabelo solto. Seu cabelo sempre estava cuidadosamente cuidado e preso com adereços coerentes com as roupas. Estas também estavam bem escolhidas, modernas, adequadas ao ambiente de trabalho. Sua maquiagem muito delicada, em tons suaves, esmeradas. Além de todo esse apuro visual, esta pessoa também apresenta uma gentileza constante difícil de descrever. Uma menina desleixada saltou aos olhos desta pessoa intensamente investida no cuidado de sua imagem.

“A menina” Hermes era o oposto da minha colega.

Por isto, a preocupação se apresentou. E é uma função da escola: verificar se a criança está sendo bem cuidada, se não está sendo negligenciada.

Temos uma criança em acompanhamento que está negligenciada pela família. Pai e mãe resistem às nossas orientações a respeito de higienização, alimentação, frequência a dentistas e médicos, acompanhamentos escolares. É uma criança que nos preocupa sobremaneira porque percebemos um grave atraso de desenvolvimento e todo nosso esforço tem gerado pouco crescimento.

O registro digno de nota neste texto é a percepção de si mesma como preconceituosa enquanto profissional e enquanto cidadã. Estamos imersas nesta cultura que é machista, racista, classista, etarista... Por mais que sejamos especialistas, estudemos racismo, gênero, façamos intervenções anti-classistas, nos atentemos para não cometermos etarismo, somos passíveis de agir erroneamente.

No exemplo que trago agora, ilustro o choque provocado em minha parceira de trabalho perante a informação da menina ser, na realidade, menino. Após a informação, não havia mais nada a fazer. Estava tudo certo. Pronto!

Mas aqui temos outra questão. Por que meninos podem chegar à escola sem alinhamento de vestimenta, sem passar um pente no cabelo e as meninas, não?

Questionei a orientadora educacional acerca do que faríamos. Mesmo Hermes sendo um menino, ele está chegando na escola com aspecto desleixado. Os meninos precisam ter também esta atenção porque os homens morrem mais e mais cedo por não se cuidarem. Os homens sofrem amputação peniana porque não se limpam! Eles não sabem, não conseguem, não foram ensinados sobre como se limpar ou como lidar com seus corpos. Assim, precisamos despertar nos meninos o auto-cuidado constante. Primar pela boa aparência, por exemplo.

Outras colegas nos avisaram que Hermes é uma miniatura do pai. Desta informação concluímos que não há o que fazer.

Outro erro!

Se o pai de Hermes (Zeus[2]) também não está se cuidando, ele pode morrer prematuramente de forma decorrente a parcos cuidados consigo mesmo. Nosso menino fica órfão.

Então também temos esta função de prestarmos atenção e de informar às famílias que os cuidados com a aparência não são apenas sociais, somente atributos em benefício da convivência social. Não. Os cuidados com higiene são importantes para a preservação da saúde física e emocional. Se considerarmos que as pessoas com aspecto cuidado têm melhor aceitação social, estarão mais resguardadas quanto à saúde emocional, terão mais amizades. É importante não ter halitose, que suas unhas estejam cuidadas (limpas e aparadas), que a higiene matinal esteja feita (sem remelas, babas e ranhos secos), sem macucos.

Nosso país prima muito pela higiene, brasileira/os gostam muito de banho. O contato com a água é muito satisfatório. Além disso, nosso povo admira a pele lisa, cabelos penteados em homens e mulheres. É muito importante que nossos odores agradem.

Eu pertenço a um grupo do qual participa um senhor que apresenta um odor muito característico e desagradável. Os outros homens não conseguem falar com ele sobre este assunto. As pessoas se afastam, não querem permanecer perto dele prejudicando o desempenho do grupo como um todo. Nosso líder enfrenta dificuldades por causa deste problema. Vejam a importância deste tema! É necessário que as pessoas se lavem. Ai, como é difícil tratar deste tema! As pessoas precisam ter bons odores para que consigam ficar próximas umas das outras. Este é um dos aspectos que precisam ser tratados para que as pessoas permaneçam em contato. É possível ter amigos desprendendo mal odor? Somente o Cascão consegue ter amigos fiéis cheirando a caminhão de lixo. O senhor exemplificado neste texto é isolado pelo grupo. Ele é meu amigo, ele tem uma conversa boa, mas é difícil ficar perto dele. Ele está sempre com mau cheiro. Quem vai falar com ele? Eu já me propus a tratar do assunto diretamente, mas ainda não consegui fazê-lo. O que é possível fazer por uma pessoa com este problema? Falar sobre o cheiro do outro é muito íntimo. Quem tem esse papel?

Uma de nossas meninas (nove anos) apresentava um odor muito forte. A diretora me procurou informando sobre o mal odor e a reclamação das outras crianças em relação a pequena. A família já tinha sido chamada a realizar a orientação devida e não obteve sucesso. A menina já estava sendo isolada das demais. Eu já conhecia a criança e, confesso, nunca senti os tais maus cheiros. Chamei-a para conversar, o que não era incomum. Tratei do assunto com segurança e objetividade. A pequena me relatou que dispunha de uma bolsinha com desodorante e alguns outros apetrechos. Perguntei se havia uma toalhinha e ela assentiu. Então, eu a ensinei a usar a toalhinha ao final do tempo de recreio, lavando suas axilas com a ponta da toalha molhada com água e sabão, enxaguando e enxugando com outra ponta. Em seguida, aplicando o desodorante novamente. O problema da menina foi solucionado. Questionei a diretora e outras crianças sobre os odores típicos dela um mês depois de minha intervenção e recebi informações de ausência de odores fétidos. Foi fácil? Não, mas resolvemos um problema persistente que direção e família não conseguiram solucionar.

Na escola, tratamos do assunto com a família do/a estudante. Nesta ocasião, que nós atinjamos também os pais. Continuando com mau cheiro, mau aspecto, provavelmente você assustará as pessoas. É uma questão de estilo? Certo. Ensinemos às crianças que elas devem estar limpas, que saiba lavar as partes íntimas: meninas e mulheres devem afastar os grandes lábios para fazer a higiene e meninos e homens devem puxar o prepúcio para lavar adequadamente seus pênis. Eu ensinei isto a muitas pessoas, mas não ensinei coletivamente para toda a minha comunidade escolar. Penso em como fazê-lo.

Infelizmente para nossos pudores individuais, felizmente para a saúde de nossas crianças e futuros homens e mulheres, psicólogas escolares podem tratar do assunto sem sermos criticadas. A higienização tem sido tratada pelas professoras e orientadoras educacionais historicamente.

Preconceitos e higienização são temas possíveis de serem tratados em nossas orientações às famílias coletiva ou individualmente.



[1] Nome fictício com manutenção de características para conservar os impactos da história original.

[2] Zeus é o pai de Hermes na mitologia grega. Uma piadinha!